O quarto da Marta
Fui tirada num dia em que ninguém imaginava que aconteceria um desastre nuclear. Durante anos, tive uma função: ser o quarto de uma menina. Antes de saber o que era esperar ela chegou. Ainda bebé, pequena, redonda, bochechuda. Acolhi-a. Vi-a crescer. Primeiro num berço, depois numa cama cor de rosa que abracei com as minhas paredes. Vi-a a dar os primeiros passos, as primeiras quedas, o choro, as gargalhadas, as birras. A tranquilidade satisfeita do seu rosto enquanto a mãe a amamentava. Fui o teto dos seus sonhos. A primeira testemunha dos seus acordares repentinos a meio da noite; dos despertares preguiçosos com a voz firme e doce da mãe. Transformou-se numa menina e fui palco e plateia das suas brincadeiras. Fui castelo, paisagem exótica, barco pirata e oceano. Olhei-a deitada no chão nas suas primeiras laboriosas ilustrações que depois pendurava nas minhas paredes e que eu exibia como condecorações. Vi os primeiros cortes de cabelo desas...