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O quarto da Marta

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    Fui tirada num dia em que ninguém imaginava que aconteceria um desastre nuclear. Durante anos, tive uma função: ser o quarto de uma menina. Antes de saber o que era esperar ela chegou. Ainda bebé, pequena, redonda, bochechuda. Acolhi-a. Vi-a crescer.  Primeiro num berço, depois numa cama cor de rosa que abracei com as minhas paredes.  Vi-a a dar os primeiros passos, as primeiras quedas, o choro, as gargalhadas, as birras. A tranquilidade satisfeita do seu rosto enquanto a mãe a amamentava. Fui o teto dos seus sonhos. A primeira testemunha dos seus acordares repentinos a meio da noite; dos despertares preguiçosos com a voz firme e doce da mãe.  Transformou-se numa menina e fui palco e plateia das suas brincadeiras. Fui castelo, paisagem exótica, barco pirata e oceano. Olhei-a deitada no chão nas suas primeiras laboriosas ilustrações que depois pendurava nas minhas paredes e que eu exibia como condecorações. Vi os primeiros cortes de cabelo desas...

Eu sei quem tu és...

Eu sei quem tu és. Sei o monstro que encerras dentro de ti e que tens medo de mostrar. Por isso finges que ele não existe. O problema é que o monstro de alimenta de sombras. Cresce na escuridão. Vai crescer até não o conseguires conter mais e, nessa altura, vai fazer sentir a sua presença com uma intensidade igual à energia que tu dedicaste a escondê-lo e a sufocá-lo no mais íntimo de ti. Eu sei precisamente quem tu és. Sei o que te move. Sei de onde vens. E sei, e isto melhor que tu, até onde consegues ir. Quando olho para ti vejo-te inteiro. Não sei porquê. Mas vejo. Para mim és transparente. Vejo o teu amor e o teu ódio. Imiscuídos. Não os consegues separar e isso doí-te muito. Essa dor torna-te quem és e eu compreendo-te e aceito-te assim. Talvez não saibas mas dentro de mim tenho um monstro tal e qual o que guardas dentro e ti. Mas o meu monstro é alimentado com luz e não trevas. O meu desgraçado monstro está enfraquecido, controlado, debilitado por uma coisa chamad...

Um marco (3/3)

Vejo a pessoa extraordinária que és e a vida que podes construir. Tens a capacidade de ter tudo e de fazer tudo mas sei, sabemos ambos, aquela que não consegues abarcar. Chama-se amor. E não é o amor de amigo ou de uma família construída. Esse tu consegues não só com a facilidade de um sorriso mas, o que é mais extraordinário, até com um comentário sarcástico ou uma das tuas expressões carrancudas. É o amor de alguém que esteja ao teu lado, que te acompanhe, que te faça sorrir, que foda contigo, que tome conta de ti e que proteja de todas aquelas coisa que finges que não precisas de ser protegido. É tão fácil gostar de ti como é impossível amar-te. Estamos os dois na paragem do autocarro. Eu tenho o teu bilhete na mão e quero passar-to mas tu não lhe pegas. E eu vou entrar no autocarro com os dois bilhetes. E sei que depois do autocarro partir vamos ficar sempre os dois a pensar no que poderia ter acontecido se tivesses pegado no bilhete. Mas depois da partida será tarde demais. ...

Um marco (2/3)

Voltaste. Deitamo-nos juntos por aquilo que pareceu um breve momento e depois saíste apressado e deixaste-me incrédulo e confuso. Mas ainda assim fiz a única coisa que sei fazer. Fiquei ao teu lado e tu que nada querias comigo… Voltaste.  Hoje moras comigo. Somos amigos. És sem dúvida um dos meus melhores amigos. Uma das pessoas que mais admiro e que mais me orgulho de ter na vida. Ao lado de tudo o que já vivemos aquelas duas noites parecem tão pequenas. Já discutimos, já rimos, já choramos… não tenho dúvidas de que nos amamos… mais do que tu esperarias. Mas às vezes olho para ti. Para dentro dos teus olhos escuros e quase que tenho que me segurar a alguma coisa para não ser sugado lá para dentro. Pela força magnética que exercem em mim. Olho para os teus olhos e vejo o teu mundo. Tão forte e cheio de cor e intensidade. Olho para o teu mundo e vejo o meu refletido num espelho que foi martelado e martelado e martelado e martelado e martelado e martelado e martelado e mar...

Um marco (1/3)

Tu tinhas razão, claro. E eu sabia-o. Ouvia as tuas palavras por debaixo do som emotivo das minhas. Tu tinhas razão. Mas eu também tinha. Ambos estamos certos. Mas o mundo que vemos é simultaneamente o mesmo e é tão diferente para cada um. E enquanto discutíamos com o meu mano a sua vida amorosa, a sua relação fugaz mas intensa com um marco eu atacava-o sem piedade e tu defendia-lo. Depois da promessa de uma relação o marco afastou-se do meu mano. E, apesar de tudo o meu mano ainda pondera ficar ao lado dele como amigo, ajudá-lo. Isso revolta-me. Olho para ele e sei que merece melhor, que o outro idiota nem a amizade dele merece. Tu dizes-me que não me cabe a mim decidir, que é o mano que tem que saber que não tenho o direito de opinar assim na vida das pessoas. Mas eu tenho que dar a minha opinião. O meu mano é uma pessoa espetacular. Intenso como deve ser. Com uma capacidade incrível de se entregar, de amar alguém e de o fazer feliz. É alguém que ama o que faz e as pessoas que ...

EGOcentriCIDADE

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By yours truly.

O futuro e o fruto

Há quase dois meses que carrego um fruto teu dentro de mim. Não sabia como te contar. Não sabia como reagir. Estava estupefacto. Nenhum de nós planeou nada disto. Mas aconteceu. Inexplicavelmente aconteceu. Tinha sido uma aventura, uma aventura despreocupada. Depois disso continuámos uma boa amizade. Mas eu soube. Sempre soube. Carregava o teu fruto dentro de mim.  Continuamos sempre a encontrar-nos. O espaço de cada um na vida do outro continuou a crescer. Somos bons amigos. Precisámos de estar na vida um do outro. E desde que te conheci que sei que vou estar sempre contigo. Tentei ignorar o fruto. O fruto dentro de mim. Vamos ser amigos. Adiei o tempo que pude. Achei que devia carregar o peso do fruto sozinho. Acho sempre que devo carregar o peso do mundo nos meus ombros. E carreguei. E fiquei ao teu lado.  Isso mudou.  Ontem decidi deixar de carregar o fruto sozinho. Mostrei-to. Disse-te como tinha acontecido. Tínhamos que tomar uma decisão juntos. Tive que ap...

A ensaiar...

Ó mãe e se te dissesse que gosto de uma pessoa de outra nacionalidade? Ó mãe e se te dissesse que também é de uma cor diferente? Ó mãe, tem calma, nem tudo é diferente. Somos do mesmo sexo!

... viste-me?

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                                           Chegado a casa do encontro com O, X pega numa folha de papel e escreve... O, Não sei como explicar isto. Não tenho o direito de sentir o que sinto. Mas no primeiro impacto X amassa a folha furiosamente e atira-a para o cesto dos papéis. Recomeça... O, o que não tive coragem para te dizer foi que senti que nos iamos fazer muito bem. Que iamos ser um. Vi uma palavra: família. Vi que entre nós não havia barreiras. Senti uma coisa quente que percebi que era confiança. Uma confiança como não sabia existir. Uma certeza maior do que o mundo. Vi a tua bondade mesmo antes de saber que ela existia. Vi a pessoa doce que és. Um enorme coração. Um coração que sempre esperei encontrar mas nunca pensei que pudesse bater além da minha imaginação. Quando percebi que existias senti-me completo. Senti uma força com uma intensidade igual à minha. S...

Estava à tua espera...

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O – X? X – Olá, O. Estava à tua espera... O – Estavas? Mas nem eu sabia se vinha. Como é que tu podias saber? X – Sabia. Não sei explicar. Mas sabia. Há muitas coisas que eu sei sobre ti, sobre nós, sobre o futuro… e que não consigo explicar. Nem vou abrir a boca…  Se eu não consigo perceber o que sinto como posso esperar que compreendas? O – Pois, mas agora é tarde demais para fechares a boca... Mas que coisas sabes? Os números do euromilhões? Dava jeito! X - Não troces. Há coisas sobre a minha vida, as pessoas com quem me relaciono, que sinto. O – Como assim? X – Não é a primeira vez que olho para alguém e que sei intuitivamente o que vai acontecer entre mim e ela… the three year deadline with M... the car accident with P... the timeless presence of L... the betrayl of F... mas… nós... mas contigo é diferente. O – Hã!? Quem... Diferente? Como assim? X – Contigo é mais nítido... mais intenso... Tu e eu… nós… O –Sim… X – Não consigo… Não tenho o direito de ver... de sentir... o que...

Diário Estelar 15:43:09:04:20:11

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Cheguei. O meu olho desliza pelo corpo e tento perceber onde estou. Que local será este? Vejo à minha volta uma circunferêncai metálica, enorme. Cerca de um terço dela é atravessada por um entrançado castanho muito alto. O cheiro é… intenso… sulfatoso… incomodativo. Este planeta é mal-cheiroso. Como primeira impressão a invasão não me parece recomendável. A única forma de sair desta circunferência é trepar o entrançado castanho e faço-o. Demoro muito tempo a subir mas consigo sair da circunferência. Corro agora pelo enorme entrançado que parece não ter fim. Ando um bom bocado e deparo-me com umas vilosidades que se amontoam. De repente acontece uma enorme oscilação. Como não esperava caio do entrançado para cima das vilosidades. Será a morte certa? Acordo num sulco, desperto pelo cheiro a sulfato. Depois de horas a caminhar deparo-me com uma longa linha espiralada. Atinjo-a com o meu taser mas ela, à parte de uma ligeira oscilação parec...

Descansa em paz

Sinto agora que "morreste". Acho que durante este tempo todo, na minha cabeça, estavas "ligado às máquinas". Tinha esperança que um dia voltasses a viver. Mas percebo, agora, que não queres que isso aconteça. Com a tua resposta ao meu mail percebi que não. Que ainda estás zangado comigo por alguma razão. Que preferes guardar dentro de ti um qualquer espinho que continuas a macerar. Compreenderia quando dizes: "não faz sentido retomarmos a falar depois de tantos anos afastados" se pelo menos uma vez tivesses feito qualquer tentativa de me contactar ou de te reaproximares. Mas não o fizeste por isso essa razão é só uma desculpa esfarrapada para qualquer outra que preferes guardar para ti. Menos compreendo porque sei que lês estas palavras agora. Como tens lido todas que aqui escrevi ao longo de tantos anos. Por isso sinto que nunca te deixei. Que durante este tempo todo falei contigo. Quando tu precisavas de mim eu estava sempre aqui. Eu sempre ...

A tua mão demora-se nos meus ombros

Nunca foste muito afectuoso. Sempre foste determinado. Apesar de seres emotivo o afecto nunca te caracterizou. Olhava para ti e via um homem alto, forte, educado e de uma tenacidade para mim desconhecida. Defendias aquilo que acreditavas com umas ganas... às vezes olhava para ti com admiração mas sempre me pareceste um bocado frio. Lembro-me de uma frase tua acerca de mim. Disse um disparate qualquer quando tinha 5 anos. Um disparate muito feio. Porque aprendi a dizer o que penso desde muito pequeno. Talvez contigo. Porque sempre disseste o que pensavas e parecia que nada nem ninguém nunca te podia assustar. E eu disse aquele disparate feio. Quando pela primeira vez ameaçaste dar-me uma palmada. Não o fizeste mas eu disse o disparate na mesma. Tinha 5 anos e disse-te que devias ter morrido quando, tempos antes, tinhas estado doente. Não sei se alguma vez me perdoaste. Mas o que me lembro de ti foi que disseste à mãe, que, com 5 anos eu ja devia saber o que dizia. Que já era um...

Entre o relógio e a vela

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Entre o relógio e a vela está uma velha fotografia nossa onde tu sorris e eu sonho. Entre o relógio e a vela não cabem duas pessoas, não cabem os teus projectos ou as minhas expectativas. Entre o relógio e a vela, numa estante onde não cabe um “nós” que já foi tão grande. Um “nós” que parecia abraçar o mundo inteiro. Entre o relógio e a vela está um carro estacionado indevidamente há dois anos e meio e que aguarda o reboque da EMEL. Entre o relógio e a vela viajam memórias de sítios longínquos habitados por ternura, assolados pela cumplicidade, afagados pelo carinho e esmagados pela impossibilidade. Entre o relógio e a vela acumulam-se finas e leves camadas de pó que escondem dois corações magoados que se procuram num amanhã com pouco sentido. Entre o relógio e a vela escondem-se segredos que nunca foram partilhados. Escondem-se medos de dois miúdos assustados. Escondem-se cacos de corações despedaçados. Entre o relógio e a vela, se olharmos com atenção, vemos o espelho da fe...

A longa espera – parte II

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…fugi. Pensei que a tua cabeça ia rolar atrás de mim. Que não me querias perder. E que ias fazer qualquer coisa para me ter de volta. Tinha a certeza disso. Por isso fiz o meu melhor. Corri. Corri e corri. Quando cheguei à estrada apanhei boleia do primeiro carro que passou. Fui direito a casa peguei em tudo o que consegui e fugi ainda mais um bocadinho. E pensei: ele vem atrás de mim. E corri para outra cidade. Mas tu sabias onde eu estava e eu pensei que podias vir atrás de mim. E mudei-me outra vez para outra cidade. E mudei de roupa e de pele e comprei outros talheres. E tomei muitos banhos. E depois pensei: ele ainda pode vir atrás de mim. E deixei crescer a barba. E pensei: ele ainda pode vir atrás de mim. Pode-me perceber numa multidão porque sabe que eu sou a única pessoa que está a fugir. E deixei de fugir. Olhei para trás pela primeira vez e vi que não corrias atrás de mim. Fiquei surpreendido. Fiquei em choque. Fiquei tão chocado que fui ao teu encontro. E encontrei-te. Esta...

A longa espera – parte I

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Viajávamos num monovolume. Fizemos muitos quilómetros com muitas paragens em locais novos, diferentes e desconhecidos. Algures numa monótona estrada do Alentejo algo correu mal. Saímos da estrada a dar piruetas em alta velocidade. O meu corpo ficou longe do teu. Levei a mão direita ao peito e senti algo húmido. Aproximei a mão dos meus olhos porque não conseguia virar a cabeça e vi que era sangue. O meu peito estava aberto e sangrava. Chamei por ti. Tu não conseguias vir ter comigo. Mas disseste que se gostasse realmente de ti não precisavas de vir: a ferida do meu peito fechar-se-ia e eu levantar-me-ia sozinho e que seria eu a ir buscar-te. Seria eu a socorrer-te. Fiquei ainda mais aturdido com o que disseste do que com as piruetas que tinha dado dentro do monovolume. Duvidei que conseguisse fazer o que dizias e, sem ti, perdi-me no meio das dúvidas. Mas pensei: não posso acabar a minha vida aqui. Caído num montado, entre uma azinheira e um sobreiro. E mandei a ferida do meu peito fec...

A FRONTEIRA DE ÁGUA

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Caminhava lentamente. O terreno era íngreme. Estava descalço. Os pés doíam-me. Caminhava lentamente por terra mal batida, amaldiçoada e de uma esterilidade tóxica. Andava nú e levava um braço partido ao peito. No gesso alguém tinha escrito “amor de mãe” dentro de um coração roxo. Foi o meu irmão. Vagueava despido com um braço fracturado e uma mão pendurada. A outra ia dentro do bolso da minha pele nua. Arrastava-me em direcção ao não-sei-quê que é o fim dos dias quando o chão deixou de me magoar os pés. Porque já não era terra o que estava sob os meus pés, era água. De repente corria pela água sem dores nos pés. Corri e corri e corri. Pela água. Até já não haver nada no meu campo de visão que não fosse água. Até não haver nada que não fosse água. Até o meu mundo ser água. E eu ser água dentro do meu mundo de água. E tinha pensamentos de água. E parei. Estava em paz. Assim é a morte.

Damiting

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Eu dobrei a esquina. A esquina ficou dobrada. Tu não a dobraste. Não tiveste tempo. Os teus olhos encontraram os meus antes que o fizesses. Foste sentar-te no banco ao meu lado. O Banco que ficava depois do dobrar da esquina para mim e antes do dobrar da esquina para ti. Não estávamos sentados juntos. Mas era o mesmo banco. Sentámo-nos juntos mas não estávamos juntos mas era o mesmo banco. Estava um lindo dia de sol. Mas não era o mesmo dia. Para mim era um dia. Para ti era o dia depois. O dia depois depois de não teres dobrado a esquina. De ainda não a teres dobrado. Tinhas-te sentado no banco antes de a dobrares. Sentaste-te porque os teus olhos encontraram os meus. Os teus olhos encontraram os meus. Mas não me viste. Não me consegues ver. Mas os teus olhos encontraram os meus. Sentados no mesmo banco olhamo-nos nos olhos e dissemos amo-te ao mesmo tempo. Sentados no mesmo banco em dias diferentes olhámo-nos sem que nos víssemos e dissemos amo-te, vendo o movimento dos lábios um do ...

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Parte III - Daddy shakes A culpa que carrego dentro de mim. É como se outra pessoa tivesse tomado conta do meu corpo. Ou talvez o meu corpo, revoltado tivesse tomado conta da minha mente. E pela primeira vez me tivesse dado controlo sobre tudo: o meu destino, a minha vida, e essencialmente, o meu corpo. Pela primeira vez eu tinha controlo sobre o meu corpo. O. Meu. Corpo. Foi por pouco tempo. Felizmente havia gente atenta. Foi como um cano que entupiu, entupiu e quando estava cheio de mais, rebentou. Aquele controlo excessivo que me tornava tão poderoso era agora um cano roto que vertia água por todos os lados. A razão era um pai incrédulo que me segurava por um braço e me abanava com força. Era uma mãe aturdida que se perguntava onde tinha falhado. Tive que voltar de lá. Senão por mim, por eles.E foi nesse regresso que percebi o quão profundo tinha mergulhado. Libertei-me porque te fiz uma promessa: deixa-me ir. Deixa-me ir que eu prometo que um dia volto. Vamos voltar a ser um. Agora...

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Parte II: A alforreca Contei-te naquele dia. No dia em que vimos a alforreca. Estávamos no Parque das Nações. Por causa do que já sabias. Da adolescência imersa em tecido adiposo, por causa da voz que me dizia "porca gorda". Contei-te tudo. Contei-te quando o puto passou de bicicleta por nós. Baixei os olhos para o chão de tábuas espaçadas entre as quais se via o rio. Foi então que a vi, a alforreca. Contei-te a única coisa que te tinha ocultado naqueles anos. Tu compreendeste-me. Não me julgaste. Disseste: só nos torna mais iguais. Porque não me contaste antes? Não sei o que te disse. Mas sei a verdade: tentava fugir daquele lugar. Daquela pessoa e daquelas acções que verdadeiramente me envergonhavam. Se te tivesse dito a pessoa que tinha sido saía da minha imaginação e tornava-se real. E depois... Depois podia não conseguir fugir dela. Tive medo que mesmo sem querer começasses a controlar os meus hábitos alimentares. Te tornasses meu carcereiro só porque te preocupavas comi...