Um marco (1/3)


Tu tinhas razão, claro. E eu sabia-o. Ouvia as tuas palavras por debaixo do som emotivo das minhas. Tu tinhas razão. Mas eu também tinha. Ambos estamos certos. Mas o mundo que vemos é simultaneamente o mesmo e é tão diferente para cada um.
E enquanto discutíamos com o meu mano a sua vida amorosa, a sua relação fugaz mas intensa com um marco eu atacava-o sem piedade e tu defendia-lo. Depois da promessa de uma relação o marco afastou-se do meu mano. E, apesar de tudo o meu mano ainda pondera ficar ao lado dele como amigo, ajudá-lo. Isso revolta-me. Olho para ele e sei que merece melhor, que o outro idiota nem a amizade dele merece. Tu dizes-me que não me cabe a mim decidir, que é o mano que tem que saber que não tenho o direito de opinar assim na vida das pessoas. Mas eu tenho que dar a minha opinião.
O meu mano é uma pessoa espetacular. Intenso como deve ser. Com uma capacidade incrível de se entregar, de amar alguém e de o fazer feliz. É alguém que ama o que faz e as pessoas que estão à sua volta. É uma pessoa muito completa. Talvez só um pouco inexperiente em questões de amor. Talvez às vezes pareça intenso e emotivo demais. Mas isso é só porque tem um bom coração, um coração de ouro.
E enquanto discutimos acaloradamente a situação do mano e do marco eu percebo algo que me deixa atónito. Percebo-o quando o mano diz “pelo menos não dormiu comigo, isso sim teria sido cruel”. Fiquei mudo por um segundo e depois pedi-lhe que repetisse. Enquanto assimilava tudo. E percebia…
Tu és o meu marco.
Deitaste-te ao meu lado e ali ficaste um noite inteira velando o meu sono. A mesma noite que nos conhecemos. E eu senti-me tão bem e tão protegido como raras vezes me tinha sentido. A minha cabeça ficou pousada no teu braço e a minha mão segurou a tua por toda a noite. Uma noite que chegou depois de um longo e frio inverno. Um inverno que no dia seguinte não deixaste que acabasse. Nessa primeira despedida senti que não me querias perder. Mas saíste da mesma forma. Eu fiz a única coisa que sei fazer: fiquei ao teu lado e tu…

Comentários

João Roque disse…
Cada caso é um caso...
ψ Psimento ψ disse…
E um momento de catarse faz sempre bem. Eu não dispenso os meus.
Um abraço

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