Mãe, achas que sou gay?

Foi assim que começei. Num tom de brincadeira e aproveitando a deixa da novela de TVI "Ninguém como tu".
Ola olhou para mim e eu repeti:
"Mãe achas que posso ser homossexual?"
"Sei lá, não me contas nada da tua vida!"- exclamou ela.
"Se calhar é por isso", respondi" porque tenho alguma coisa a esconder, sou homossexual! E se for gostas de mim à mesma?"
"Achas bonito um homem gostar de outro homem em vez de gostar de uma mulher?"
"Bonito? Achas bonito uma pessoa que fica deformada com um acidente? Tem menos direito à vida por isso? Ou a ser respeitado? E as pessoas que nascem com deficiências? Ou sobredotadas? Ninguém escolhe como nasce! As pessoas só escolhem ou não viver a sua vida com dignidade e têm direito a ser respeitadas. Se eu fosse homossexual ias fgostar menos de mim?"
"Olha não quero falar disso. A minha educação não me permite aceitar uma coisa dessas. Não foi assim que eu fui educada."
"Ó mãe, quando tu cresceste as pessoas tinham uma visão um bocadinho diferente da homossexualidade. Mas felizmente o mundo mudou e tu devias evoluir com ele! Quer dizer tu relacionas-te com ex-toxicocependentes e um homossexual faz-te assim tanta diferença?" (referia-me a um ex-colega de trabalho com quem a minha mãe conversou naquele dia)
"Ele não é ex-toxicodependente, é ex-traficante!-corrigiu-me ela."
"Como se fizesse diferença para ti, se cometeu um erro mas é uma boa pessoa não vais deixar de te dar com ela!"
"Mas porquê essa conversa agora?"
"Por causa da novela."
"Mas diz-me, se eu fosse homossexual ias gostar menos de mim?"
A minha mãe suspira e mostra-se impaciente...
"Então, ias?"
"Acho que Deus já me castigou demais, não preciso de mais um!"
Ouchhhh...
"Se não aceitas que um filho não coma carne nem peixe como vais aceitar um que seja homossexual?"
"E como achas que eu me sinto nunca ter conseguido fazer com que o teu irmão comesse carne ou peixe? - exclama ela a chegar às lágrimas."
"Ó mãe mas tu é que escolheste isso. Não é um falhanço teu. É a pessoa que ele é. Tu só tinhas que te limitar a aceitar que ele é assim e não de te martirizares a vida toda e fazer disso uma cruz!"
A conversa ficou por ali. Queria ter dito: Pois, sou mesmo homossexual. Mas foi a primeira vez que consegui ter esta conversa com a minha mãe. Apesar de tudo correu melhor do que esperava. Foi uma conversa serena, sem histerismos nem berros. Nos momentos seguintes reparei que a minha mãe olhou para mim como se eu fosse um metamorfo que tinha acupado o lugar do filho. Fiquei sobressaltado. Mas à noite quando me levou o leite quente tava meiga e carinhosa como sempre. E hoje de manhã quando me acordou também.
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