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My story #21: De sexualidade

Um dia de manhã olhei-me bem nos olhos ao espelho embaciado da casa de banho que partilhava com os meus colegas e disse aquela estranha palavra pela primeira vez: homossexual. Não sabia muito sobre ela. Mas sabia que se me sentia atraído por pessoas do mesmo sexo ela se aplicava. Talvez sempre soubesse daquela atração mas com o “barulho” da gordura penso que passou despercebida. Isto parecia-me muito injusto. Tudo o que eu queria era ser aceite pelo que era. Era ser igual. Mas mais uma vez era diferente. Mais uma vez ia andar à luta com um rótulo. Aquilo tudo era demais. Pensei que a vida estava a ser muito cruel comigo. Naquele dia saí para a rua mas, mesmo depois de ter dito aquela palavra a mim próprio continuava igual a mim. Não tinha mudado nenhum comportamento. Não queria andar de saltos altos ou tinha tiques nas mãos. Nada tinha mudado. Mas sabia bem que a sociedade discriminava as pessoas por serem diferentes. Aliás, os gordos até se podiam casar mas o homossexuais não. Depois ...

My story #20: O primeiro beijo

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Agora tudo estava bem. Tinha resolvido o meu problema com a comida estava num processo de reconciliação com o meu corpo. Tudo era maravilhoso. Mas… De repente tinha 23 anos e percebi que nunca tinha beijado ninguém. Nem me passava pela cabeça que alguém podia querer tocar o meu corpo. Durante a adolescência quando todos os meus amigos tinham tudo as suas experiências eu tinha ficado à margem. Se o meu corpo era um transtorno para mim como podia dar prazer a alguém? Claro que sabia ter prazer com o meu corpo. Mas são imaginava como seria partilhar isso com alguém. Como seria tocar alguém? Como seria deixar que alguém me tocasse? Não fazia ideia mas queria descobrir. E depressa que se estava a fazer tarde. Numa das saídas à noite que, naquela altura, tinham como destino invariável o Adro, (mesmo ao lado da Sé) encontrei o P.S. Fui ter com ele e disse-lhe qualquer coisa. Eu tinha bebido. Não me lembro o que ele me disse. Mas lembro-me perfeitamente do que fiz a seguir. Comecei a conv...

My story #19: Um cano rebenta

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Em casa continuei com os meus estranhos comportamentos. Até um dia. Um dia algo de estranho aconteceu. Uma parte do chão no quintal da casa, mesmo por baixo das escadas estava húmido. Um cano estava entupido. Tudo aquilo que eu tinha escondido estava agora à vista. Acho que no fundo queria que aquilo acontecesse. O meu pai que nunca me tinha batido, veio ao meu quarto, furioso. Não me lembro do que disse. Mas agarrou-me e olhou-e e abanou-me. Abanou-me de volta daquele estado em que estava. Percebi, como não tinha percebido antes, que se preocupava comigo. Que o que eu fazia importava para ele. E que gostava de mim. E parei. Não foi fácil. Nos primeiros tempos sempre que a minha mãe colocava mais comida no meu prato eu levantava-me da mesa furioso. Quando me abraçava era para sentir o volume do meu corpo por baixo da roupa e não somente por afecto e eu também me zangava. Foram tempos complicados. O controlo que os meus pais queriam exercer era precisamente contrário à autonomia e à lib...

My story #18: Os limites

No início do segundo ano fui morar com os rapazes do meu curso. Todos juntos alugamos um apartamento e eu dormia num enorme quarto com lareira. Acho que agora gostava de mim. Dois aspectos davam-me uma confiança que até então tinha desconhecido que pudesse existir: o facto de perceber que controlava o que comia e que assim tinha controlo sobre o meu corpo e o facto de saber que o meu empenho e o meu trabalho contribuíam directamente para o meu sucesso académico. Quase todas as sextas-feiras voltava para casa dos meus pais. E, no Domingo à tarde, ou na segunda de manhã o meu pai levava-me a Leiria. Levava sempre muita comida. Muitas vezes alguma estragava-se. Ou era fruta que apodrecia ou comida que se estragava porque almoçava na escola e não conseguia comer tudo. Talvez tenha dito à minha mãe para não me mandar tanta comida. Mas a verdade é que ela continuava a mandar-me imensa comida. Comida que eu agora não precisava. Mas também não a queria desiludir. Queria muito que ela tive...

My story #17: Um ser de luz

No início não estava muito confiante. Achava todo aquele mundo maravilhoso demais e não percebia o que tinha feito para merecer tudo aquilo. Depois também achava que não era assim tão inteligente como isso para tirar um curso superior. E depois tinha uma formação diferente de toda a gente. Todos vinham de cursos científicos-naturais e eu vinha de um curso tecnológico. Todos tinham tido Química e eu tinha tido Física. Não gostava muito de Química. Por isso quando recebi a nota do meu primeiro teste, que era de Química, não foi com surpresa que vi que tinha negativa. E pensei que seria sempre assim. Ia ter imensas negativas e ia sair da Escola por não ser bom o suficiente. Bem me parecia que tudo aquilo era bom demais para continuar. Ainda assim continuei a trabalhar e a esforçar-me. E afinal estava enganado. Não voltei a tirar uma negativa durante todo o curso. E surpreendentemente empenhei-me como nunca antes na minha carreira escolar. Nunca tinha precisado ou querido estudar com afinc...

My story #16: Vida nova!

Recordo-me que cheguei a Leiria numa quarta-feira. Os meus pais levaram-me e deixaram-me na casa de uma senhora que morava nos Capuchos, mesmo ao lado da Escola. Tinha ficado num quarto com casa de banho e varanda. Depois foram embora. Depois de eles partirem pensei: estou sozinho. Sempre tive pessoas à minha volta. E agora estou sozinho. E olhei longamente para dentro de mim. Naquele dia tudo tinha mudado de uma forma muito radical e diferente de qualquer mudança anterior. Aquele silêncio todo era ensurdecedor. Chorei. Depois saí de casa e descobri a Papelaria “Arquivo”. Comprei um livro sobre fenómenos paranormais e fui para casa lê-lo.  Tudo tinha mudado tudo na minha vida. Tudo menos uma coisa: “Gordo!” Ia começar o meu primeiro dia de aulas. Ninguém me conhecia. Podia ser quem quisesse. Podia ser respeitado. Podia ser inteligente e fazer novos amigos. As humilhações que tinha sofrido nas escolas anteriores eram desconhecidas. Tudo ia começar de novo. Mas… Assim que cheguei à...

My story #15: Operação 18

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Fui ao médico. Tinha um quisto no cóccix. Tive que ser operado. Lembro-me que me custou imenso andar depois e que tinha uma grande cauda vermelha que era um dreno que sugava o meu sangue da minha ferida. Recebi muitas visitas dos meus amigos. Depois de ter saído do Hospital tive uma grande surpresa. O P.S. foi-me visitar. Uns tempos antes um amigo comum tinha-nos juntado numa equipa de futebol de cinco. E ainda consegui participar em alguns jogos depois da minha recuperação. Depois disso o P.S. foi estudar para Leiria tirar um curso que acabaria em tempo recorde. O David também foi e tornaram-se colegas. Eu ainda fiquei mais um ano a acabar disciplinas e a perceber o que queria fazer da minha vida. Tinha percebido que, indepententemente das saídas profissionais que tivesse, não era informática. Gostava de computadores mas não o suficiente para passar o resto da minha vida num diálogo mudo com eles. Queria trabalhar com pessoas. Era da relação humana que gostava.  Então comecei a tr...

My story #14: O grupo de amigos

Uma das coisa que aprendi com o P.S. foi a ter hábitos de vida mais saudáveis. Comecei a ser mais activo e estava mais tempo fora de casa. Fazia mais desporto: andava de bicicleta e fazia natação. A natação já tinha começado no 5.º ano. Comecei a ter aulas de guitarra portuguesa juntamente com a minha amiga Inês. Mantive a minha amizade com o David e o Hélder. Ao nosso grupo, depauperado depois da partida do Nelson, juntou-se a minha prima Sónia. Os pais do André e da Inês tinham decidido que eles viriam estudar para Caldas e eles também se juntaram a nós. Apesar de estarmos em turmas diferentes encontravamo-nos com frequência nos intervalos. Juntos tínhamos várias iniciativas. Juntávamos dinheiro semanalmente. Organizávamos festas e multiplicávamos esse dinheiro. E depois organizávamos actividades nas férias grandes. Passávamos parte das férias juntos. O facto da minha aldeia ficar a meia dúzia de quilómetros da bela baía de São Martinho facilitiva muito as nossa deslocações. Muitas v...

My story #13: P.S.: Eu cresço (Parte II de II)

Durante o 9.º ano tornamo-nos inseparáveis. Quando ele correu na maratona e ficou em 6.º lugar a nível distrital eu estava lá para lhe dar uma garrafa de água ao longo da corrida. (Eu tinha ficado em último e penúltimo nos dois únicos corta-matos escolares em que tinha participado. Da vez que fiquei em penúltimo foi porque o outro rapaz parou para apertar os ténis.)  Quando ele não tinha dinheiro para o almoço eu emprestava-lho. Tínhamos grandes discussões em que ele defendia o ponto de vista dele de que devemos defender os nossos interesses e lutar por aquilo que queremos sem olhar aos meios. Eu tentava dizer-lhe que as coisas aconteciam se as merecêssemos e acreditássemos nelas. Que com fair-play também podíamos conseguir os nosso objectivos. Entretanto tínhamos passado para o secundário e que íamos concluir na mesma turma. Na altura pensava seguir Humanidades mas para isso teria que mudar para outra escola mais distante e onde não conhecia ninguém. Por isso, sem dúvida influenci...

My story #13: P.S.: Eu cresço (Parte I de II)

“Gordo!” Perdi a conta às vezes que ouvia aquela palavra durante o dia. Lembro-me que a mãe dos meus amigos e vizinhos André e Inês, que moravam em Lisboa mas que iam para “a terra” no fim-de-semana e nas férias, um dia em que me estava a dar boleia no seu carocha verde alface me disse, sem maldade: “Senta-te no meio, Xico, os amortecedores não estão muito bons.” Também nas visitas de estudo os professores me diziam para sentar nos bancos do fundo do autocarro porque se fosse nos duplos íamos mais apertados. À medida que crescia parece que o meu corpo ganhava cada vez mais importância e cada vez reparavam mais nele. “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!” Muitas vezes chegava a casa e atirava-me para cima da cama a chorar. Não queria ouvir mais aquela palavra. Sentia-me p...

Mãe, esta é a minha vida!

Acabei de por nas mãos da minha mãe (que está a recuperar de uma cirurgia) o trabalho que realizei para uma disciplina de arte terapia que conta toda a história da minha vida (sexo, mentiras, vídeo... tudo!) e ainda por cima tem ilustrações. (Este trabalho está a ser postado aos bochechos com a etiqueta " My Story ".) -Assim que começares a chorar tiro-te o trabalho das mãos! - adverti eu. E paras no capítulo XIX porque a seguir vem a minha vida sexual. - Chorar? Não vejo aqui nada para chorar. E não posso ler sobre a tua vida sexual porquê? - Mãe! Porque é... é muito monótona...vais-te aborrecer. Ela leu a introdução sem se comover e passou para o enquadramento familiar. Quando chegou ao capítulo IV  uma lágrima gorda rolou-lhe pelo olho esquerdo. - Pronto, mãe, acabou. Dá cá o trabalho. - Porquê? - Porque estás a chorar! - A chorar, eu? - respondeu descaradamente. - Sim, mãe. Tens uma lágrima no olho. Eu estou a vê-la! - Não estou nada a chorar. São os olhos que ...

My story #12: Religiosidade assombrada

Uma vez, o Gil desafiou-nos, a mim e ao David, para irmos a uma casa assombrada no intervalo das aulas. Era uma enorme vivenda que estava abandonada e diziam que as rosas do jardim deitavam sangue e que havia um fantasma. Eu não estava muito interessado em ir mas como o Gil disse que era só para rapazes corajosos, lá fomos. A casa era de facto enorme e era muito fácil entrar lá dentro porque as portas e as janelas estavam abertas. Lá dentro estava tudo desarrumado e com ar decadente. No princípio tive medo mas depois percebi que não havia fantasma nenhum. Decidi encher a minha mochila com fotografias antigas e uns cartões que estavam no chão. O David e o Gil disseram que era melhor guardar segredo mas eu não percebia porquê e quando cheguei à escola mostrei a todos o que tinha trazido da casa assombrada. Era um rapaz corajoso e toda a gente devia saber disso. A aula a seguir era de Religião e Moral. A professora soube que tínhamos ido à casa assombrada. Não ficou muito feliz e disse qu...

My story #11: O rapaz do rato

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Depois da partida do Nelson acho que me propus ajudar todos os animais. Lembro-me de recolher uma pequena cobra e um morcego ferido. Tive uma grande paixão por patos. Achava-os o epíteto da liberdade. Por esta altura os meus pais compraram-me dois patos marrecos que eu adorava. O Mickey e o Pimpão. As penas do Mickey eram iguaizinhas às dos patos bravos. Passava imenso tempo a observá-los. Construíram um lago para eles que se via pela janela do meu quarto e eu adorava ficar a vê-los a nadar. Também tive outros patos (dos mudos). Por essa altura vi um documentário sobre o austríaco Korand Lorentz e fiquei encantado com conceito de imprinting. Achava que era maravilhoso passar os dias com bandos de gansos. Pensei durante muito tempo que queria ser veterinário. O facto de morar perto de um paúl deve ter-me influênciado. Passei muitas tardes sozinho a explorar este espaço que tão maltratado é. Adorava apanhar cágados e tive alguns no grande quintal da “casa velha”. Um dos meus animais de e...

My story #14: O grupo de amigos

Uma das coisa que aprendi com o P.S. foi a ter hábitos de vida mais saudáveis. Comecei a ser mais activo e estava mais tempo fora de casa. Fazia mais desporto: andava de bicicleta e fazia natação. A natação já tinha começado no 5.º ano. Comecei a ter aulas de guitarra portuguesa juntamente com a minha amiga Inês. Mantive a minha amizade com o David e o Hélder. Ao nosso grupo, depauperado depois da partida do Nelson, juntou-se a minha prima Sónia. Os pais do André e da Inês tinham decidido que eles viriam estudar para Caldas e eles também se juntaram a nós. Apesar de estarmos em turmas diferentes encontravamo-nos com frequência nos intervalos. Juntos tínhamos várias iniciativas. Juntávamos dinheiro semanalmente. Organizávamos festas e multiplicávamos esse dinheiro. E depois organizávamos actividades nas férias grandes. Passávamos parte das férias juntos. O facto da minha aldeia ficar a meia dúzia de quilómetros da bela baía de São Martinho facilitiva muito as nossa deslocações. Muitas v...

My story #10: Adeus Nelson

Felizmente tinha amigos. Bons amigos. O David, o Nelson e o Hélder. E também fiz amigos na minha turma: o Luís que tinha uma pele muito branquinha e que batizei de “Schultz” já não me lembro porquê; o Aquilino que era um menino preto (o primeiro que conheci) e era simpático comigo. Costumava pousar a mão na minha barriga e perguntar-me quando nascia o bebé; a Márcia, que era castanha e adorava dançar, a Armanda que usava óculos, a Titânia tinha um cabelo louro muito bonito; a Catarina que gostava de beijar os rapazes; o Marco “Mariconço” que usava sempre um pullover por cima dos ombros, era alto e desengonçado e já tinha bigode. Na turma também havia meninos com quem não me podia dar. Eram aqueles que iam para trás do ginásio fumar. Fumar era uma coisa muito feia e todos os meninos bons sabiam que não o deviam fazer. Quem fumava era uma má companhia. Por isso evitava sempre o Edgar e o Luís “Alto”. Mas nenhum dos meus amigos era tão importante como o Nelson. O Nelson era o meu mano. Um...

My story #09: Aberração gorda

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Aos 10 anos fui para o 5.º ano de escolaridade. Saí do pequeno abrigo de onde tinha estado, da minha pequena escola de aldeia e do mundo abrigado e protegido que conhecia. Uma das imagens que tenho na cabeça é a de uma redoma no espaço. A Terra tinha-se fragmentado mas eu conseguia muito bem perceber quem eram as pessoas que estavam dentro daquele pedaço de terra com uma redoma transparente que flutuava no espaço e onde estavam outros pedaços da terra também com redomas. Sabia muito bem quem estava dentro da minha redoma. Conseguia, naquele tempo enumerar todas as pessoas da minha vida e colocá-las na redoma. Então cheguei a uma escola nova com muitos meninos. Na minha turma estavam dois meninos da primária, o inteligente David e o meu antagonista Pedro d’Amélia. Eu tornei-me muito amigo do David, que se dava muito bem com o Hélder. Eles eram vizinhos e viviam fora do centro da aldeia. Como não tinham irmãos passavam muito tempo juntos, tal como eu e o Nelson. Tornar-nos-íamos todos am...

My story #08: As brincadeiras

Um dos meus tesouros era umas canetas que o meu pai trouxe do Brasil. Eram 24 e vinham numa grande caixa. Cada caneta tinha o nome das cores escritas. Fiquei muito intrigado e feliz com uma cor: o marrom. Era muito parecido com o castanho mas era marrom. Devia ser muito rara. Claro que toda a gente queria usar as minhas canetas e eu emprestava-as sempre. Gostava que mas pedissem e gostava de partilhar. A professora proibiu que as emprestasse pois os outros meninos podiam estragá-las. A verdade é que eram resistentes e ainda “sobreviveram” durante muito tempo. Na escola os outros meninos gostavam dos meus desenhos. Lembro-me de desenhar todos os meninos numa roda, todos muito redondos. Quando não estava na escola tinha sempre companhia. Brincava com amigos meus da terra ou com o Tó. O Tó é filho da M.C., uma senhora que casou com o filho da minha vizinha do outro lado da rua. Apesar de morar na cidade a M.C., ia muitas vezes àquela casa e como esteve grávida logo à seguir à mãe, tor...

My story #07: A escola

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O meu pai continuava com longas viagens. Felizmente quando regressava ficava em casa um tempo igual ao que tinha ficado no mar. Mas sabia sempre a pouco. Nesta altura os meios de comunicação entre o meu pai e nós eram o telegrama, a carta ou o postal. Lembro-me que a minha mãe me tentou ensinar a escrever para o meu pai. O meu pai trazia-me sempre presentes quando regressava. E brincava imenso comigo. Apesar de ter muitos brinquedos havia uma coisa que eu adorava: recortar. Desenhava os meus próprios brinquedos em cartão e recortava-os ou então recortava-os de papel de fantasia. Tinha gavetas cheias deles. E gostava de criar famílias e relações entre eles. Também me lembro que gostava que a minha mãe me construísse brinquedos em tecido. Eram os mais duradouros. Porque tudo o resto eu desmontava. Abria carrinhos, desconstruía tudo e queria ver sempre o que estava lá dentro. Por isso o lego foi uma descoberta muito importante para mim. Aos 5 anos entrei para a escola. Era uma escola rela...

My story #06: Os animais

Apesar do incidente do cão dos meus avós não deixei de gostar de animais. Eram o melhor da vida do campo. Lembro-me de uma pata branca que a minha avó me ofereceu e que eu adorava. Adorava brincar com coelhos mas sempre achei as galinhas animais muito idiotas. Eu queria adoptar todos os animais que conseguisse. Acho que herdei isto da minha avó Josefa que criou: gansos, patos, galinhas anãs, pombos. Eu acompanhava-a sempre quando ela os ia alimentar. A minha avó chegou a ter um rebalho de ovelhas que um senhor levava a pastar. Eram umas vinte e estavam dentro de uma cerca enorme e tinham uma casa de madeira onde dormiam. Um dia vendeu-as todas. Depois teve um grande bezerro que também vendeu. E havia sempre uma porca a ter ninhadas de bacorinhos. O meu avô andava sempre pelas localidades vizinhas a dsitribuir rações de animais ou botijas de gás ou adubos. Algumas vezes eu ia com ele e muitas pessoas me conheciam por causa disso. Outra vezes ficava na loja com a minha avó e a minha ...

My story #05: A primeira amizade

Lembro-me perfeitamente do meu primeiro amigo. O Nelson. Lembro-me da primeira vez que o vi com uma boina azul na cabeça. Vi-o pela mesma janela onde o veria anos depois a chorar antes de desaparecer da minha vida. Ele ia a passar para a casa da minha vizinha que era sua madrinha. A minha mãe disse-me: “Aquele menino perdeu a mãe. Vais ser simpático com ele, sim?” A verdade é que me lembro de tempos antes ir ver a mãe dele ao hospital. O Nelson foi uma das pessoas mais humildes, engenhosas e bondosas que conheci. Tornei-me facilmente amigo dele. Depois das aulas estávamos sempre juntos. Ele morava na minha rua. Íamos muitas vezes para casa dele depois das aulas que começavam às 9 horas e 30 minutos e acabavam às 15 horas e 30 minutos. Ele vivia com a avó, com o pai e dois irmãos muito mais velhos, um deles tinha problemas mentais que eram agravados pelo consumo de álcool o outro acabou por emigrar para os Estados Unidos. A avó dele não tinha tido uma vida muito feliz: tinha visto o fil...