My story #19: Um cano rebenta
Em casa continuei com os meus estranhos comportamentos. Até um dia. Um dia algo de estranho aconteceu. Uma parte do chão no quintal da casa, mesmo por baixo das escadas estava húmido. Um cano estava entupido. Tudo aquilo que eu tinha escondido estava agora à vista. Acho que no fundo queria que aquilo acontecesse. O meu pai que nunca me tinha batido, veio ao meu quarto, furioso. Não me lembro do que disse. Mas agarrou-me e olhou-e e abanou-me. Abanou-me de volta daquele estado em que estava. Percebi, como não tinha percebido antes, que se preocupava comigo. Que o que eu fazia importava para ele. E que gostava de mim. E parei.
Não foi fácil. Nos primeiros tempos sempre que a minha mãe colocava mais comida no meu prato eu levantava-me da mesa furioso. Quando me abraçava era para sentir o volume do meu corpo por baixo da roupa e não somente por afecto e eu também me zangava. Foram tempos complicados. O controlo que os meus pais queriam exercer era precisamente contrário à autonomia e à liberdade que eu tanto prezava e que tanto orgulho tinha por ter conseguido alcançar. Às vezes penso que parte de tudo isto aconteceu porque nem eu nem a minha mãe tínhamos noção onde começava um de nós e acabava o outro. E que tudo isto foi um corte no cordão umbilical para que eu pudesse continuar a crescer.
Mas ultrapassamos toda esta situação. Estou grato aos meus pais por tudo o que fizeram por mim e sei que todo o meu amor é pouco para as pessoas maravilhosas que são.
Aquela palavra “Gordo!” deixou de me perseguir. De vez em quando ainda surge na minha cabeça. E acho que nunca desaparecerá. Mas a prendi a lidar com ela. Todas as coisas que fui estão tão presentes em mim como todas as coisas que sou. E aceito-as como parte de um processo de aprendizagem. Aceito-me como sou. E fico mais forte e mais maduro com todas as experiências.

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