My story #10: Adeus Nelson
Felizmente tinha amigos. Bons amigos. O David, o Nelson e o Hélder. E também fiz amigos na minha turma: o Luís que tinha uma pele muito branquinha e que batizei de “Schultz” já não me lembro porquê; o Aquilino que era um menino preto (o primeiro que conheci) e era simpático comigo. Costumava pousar a mão na minha barriga e perguntar-me quando nascia o bebé; a Márcia, que era castanha e adorava dançar, a Armanda que usava óculos, a Titânia tinha um cabelo louro muito bonito; a Catarina que gostava de beijar os rapazes; o Marco “Mariconço” que usava sempre um pullover por cima dos ombros, era alto e desengonçado e já tinha bigode. Na turma também havia meninos com quem não me podia dar. Eram aqueles que iam para trás do ginásio fumar. Fumar era uma coisa muito feia e todos os meninos bons sabiam que não o deviam fazer. Quem fumava era uma má companhia. Por isso evitava sempre o Edgar e o Luís “Alto”.
Mas nenhum dos meus amigos era tão importante como o Nelson. O Nelson era o meu mano.
Um dia aconteceu uma tragédia. O pai do Nelson desapareceu. Toda a aldeia o procurou mas ele não estava em lado nenhum. Chamaram os bombeiros e iam drenar o poço porque parecia que ele podia ter caído lá dentro. A verdade é que estava mesmo lá. Ao meu dicionário juntei uma palavra nova: “suicídio”.
A avó do Nelson já estava muito velha para tomar conta dele. E ele teve que ir morar para casa da madrinha que era ao lado da minha. Pensei que íamos ficar mais próximos mas a verdade é que passei a ver muito pouco o Nelson. Descobri que ele não ia ficar muito tempo na casa da madrinha. Tinha que ir embora para os Estados Unidos para junto do irmão do meio. Não podia ser! Pedi à minha mãe para ele ir lá para casa. A minha mãe disse que gostava muito dele mas que não podia ser, não podíamos ficar com ele. Ele ainda tinha uma família e tinha que ficar com ela.
O meu melhor amigo ia para um país distante, como o meu pai fazia. A diferença é que ele não ia voltar. Ia morar para lá, como as primas americanas da mãe que eu nunca via mas sabia que existiam porque mandavam cartas.
Recordo-me da noite em que ele se foi despedir de mim. Foi muito difícil dizer adeus ao meu mano. Ele não merecia aquilo. Como é que o pai dele foi capaz de o deixar sozinho!?!?!! Como?!?! Depois de ele ter perdido a mãe aos cinco anos, perder o pai aos onze parecia uma coisa cruel demais. Não podia ser. Mas era. De dentro do meu mundo cor-de-rosa percebi que o mundo podia ser muito cruel. Depois de ele sair da minha casa fui para a janela onde o vi pela primeira vez. Queria ficar com ele mais um bocadinho. Vi-o passar as mãos pelos olhos enquanto lágrimas grossas rolavam pela minha cara e o vidro da janela se embaciava.
Comentários
Speedy, na altura eu também não. Aquilo pareceu-me excessivamente cruel para uma criança.
Pinguim, muito triste. Felizmente o Nelson hoje é uma pessoa feliz, com uma vida agradável e equilibrada. Apesar de tudo o que passou é uma das pessoas mais bondosas que conheço. Um verdadeiro exemplo.
Abraços a todos!
Obrigado pelo elogio. Um dia hei de ser.