My story #13: P.S.: Eu cresço (Parte II de II)

Durante o 9.º ano tornamo-nos inseparáveis. Quando ele correu na maratona e ficou em 6.º lugar a nível distrital eu estava lá para lhe dar uma garrafa de água ao longo da corrida. (Eu tinha ficado em último e penúltimo nos dois únicos corta-matos escolares em que tinha participado. Da vez que fiquei em penúltimo foi porque o outro rapaz parou para apertar os ténis.) Quando ele não tinha dinheiro para o almoço eu emprestava-lho. Tínhamos grandes discussões em que ele defendia o ponto de vista dele de que devemos defender os nossos interesses e lutar por aquilo que queremos sem olhar aos meios. Eu tentava dizer-lhe que as coisas aconteciam se as merecêssemos e acreditássemos nelas. Que com fair-play também podíamos conseguir os nosso objectivos.
Entretanto tínhamos passado para o secundário e que íamos concluir na mesma turma. Na altura pensava seguir Humanidades mas para isso teria que mudar para outra escola mais distante e onde não conhecia ninguém. Por isso, sem dúvida influenciado pelo P.S. mas também pela minha paixão recentemente descoberta: o computador. Escolhi fazer Informática.
Ele ia para minha casa e estudávamos juntos muitas vezes. Começou a confiar em mim. Mas muitas vezes troçava de mim. De como eu era gordo. “Gordo!”
Acho que só fazia aquilo para se sentir bem com ele próprio. Começou-me a pedir dinheiro mas depois isso não chegava e começou a tirá-lo da minha carteira. Uma vez descobri a calculadora que tinha “perdido” no estojo dele. Não compreendia porque precisava de tirar algo que poderia ter se pedisse…
A minha prima Sónia que era da mesma turma que nós era minha confidente e sabia o que se passava. Nas minhas costas decidiu contar o que se passava à minha mãe que foi firme: “Ele tem que deixar de vir cá a casa. Se não o fizeres ligo à mãe dele e conto o que se anda a passar”. Eu fiquei sem forças. Se a minha mãe o fizesse ele sentiria isto como uma traição. Estava entre a espada e a parede.
Tinha-me proposto mudar o P.S. e apoiá-lo. E falhei. Como falhei em curar o morcego ferido que encontrei na berma da estrada. Como falhei com o imprinting nos patinhos que nasceram no quintal.
Um dia, pouco antes do Natal, o P.S. foi ter a minha casa de bicicleta como tinha começado a fazer. Até ao fim-de-semana nos encontrávamos.
Bateu à porta e quando abri perguntou:
- Tens o TP? (Turbo Pascal: programa informático)
Eu devia ter agido com mais calma. Devia ter-lhe dito o que estava de errado. Deveria ter lutado com a garra que ele tinha. Mas só conhecia o afecto e por só conhecer o afecto não ia tolerar que me desrespeitasse mais e disse:
- Não.
E olhei-o nos olhos. Os olhos dele estavam tristes. Os meus vermelhos. Lentamente fechei a porta.
Ele foi-se embora. Corri para a janela e vi que chorava. Nunca o tinha visto chorar nem sabia se ele era capaz de o fazer de tão forte que era (ou fingia ser). Eu sempre tive muitos amigos e apesar de aparentemente na nossa relação eu ser o “fraco”, a verdade é que ele precisava mais de mim que eu dele. Mas depois do que eu fiz sabia que ele não me ia perdoar. Todo o respeito que tanto tempo tinha demorado a conquistar estava irremediavelmente perdido. Tinha-me proposto mudar o P.S. e talvez o tenha mudado um pouco. Mas ele também me mudou.
Na escola ele disse-me que iria fazer tudo o que pudesse para me destruir...
Sim, talvez tenha “falhado” com o P.S. mas também sei que tentei com todo o meu coração. Que dei tudo o que podia dar. Mas não podia, de forma nenhuma, deixar o respeito que tinha por mim próprio e que tanto me esforçava por manter.
Eu tinha começado a construir uma carapaça à minha volta. Ainda mais densa que a minha gordura. Na troca de correspondência do Dia de São Valentim recebia cartas de pessoas que troçavam de mim. Lembro-me do olhar desapontado dos meus colegas, quando uma vez depois de receber as cartas as fui colocar todas no lixo sem as abrir.
Aprendi a lutar pelo que queria com o P.S. A traçar objectivos como ele. A aplicar-me como ele. Felizmente não aprendi a passar por cima das regras ou dos outros e, por muito que me custe dizê-lo, talvez por isso nunca chegue tão longe profissionalmente como ele. Mas prefiro dormir tranquilo à noite. Sei que não gostaria de mim de outra forma.

Comentários

João Roque disse…
Acreditas que não consigo imaginar-te gordo?
Frankenstaquio disse…
Pinguim, não precisas imaginar. É só veres uma das fotos que tenho no facebook... Abraço
Francisco disse…
Nada como dormir todas as noites "o sono dos justos"

Abraço
um coelho disse…
A sensação de não conseguir atingir um objetivo que se tinha definido é frustrante. Mas neste caso, convenhamos, parece que o objetivo não era fácil de concretizar. Infelizmente não temos o poder de mudar (todas) as pessoas... :/
Frankenstaquio disse…
Francisco,
é muito bom.

Um coelho
é mesmo frustrante, mas sei que mudei um bocadinho da pessoa, pelo menos.

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