My story #05: A primeira amizade
Lembro-me perfeitamente do meu primeiro amigo. O Nelson. Lembro-me da primeira vez que o vi com uma boina azul na cabeça. Vi-o pela mesma janela onde o veria anos depois a chorar antes de desaparecer da minha vida. Ele ia a passar para a casa da minha vizinha que era sua madrinha. A minha mãe disse-me: “Aquele menino perdeu a mãe. Vais ser simpático com ele, sim?” A verdade é que me lembro de tempos antes ir ver a mãe dele ao hospital. O Nelson foi uma das pessoas mais humildes, engenhosas e bondosas que conheci. Tornei-me facilmente amigo dele. Depois das aulas estávamos sempre juntos. Ele morava na minha rua. Íamos muitas vezes para casa dele depois das aulas que começavam às 9 horas e 30 minutos e acabavam às 15 horas e 30 minutos. Ele vivia com a avó, com o pai e dois irmãos muito mais velhos, um deles tinha problemas mentais que eram agravados pelo consumo de álcool o outro acabou por emigrar para os Estados Unidos. A avó dele não tinha tido uma vida muito feliz: tinha visto o filho morrer jovem na tropa; o marido tinha-se enforcado num anexo da casa quando descobriu que tinha um cancro inoperável; e a filha, a mãe do Nelson tinha morrido com uma bactéria alojada no coração. Achava muito injusto para ele e percebia que eu tinha muita sorte. Ter uma mãe que me amasse era um luxo que aprendi a estimar.
O que mais admiro no Nelson é que não era revoltado nem tinha uma ponta de maldade. Talvez fosse um pouco melancólico. Depois da aulas quando iamos para a casa dele eu queria sempre ir brincar mas ele insistia que fizessemos os trabalhos da escola primeiro. Sempre. E habituei-me a isso. Foi uma boa influência para mim.
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