My story #08: As brincadeiras

Um dos meus tesouros era umas canetas que o meu pai trouxe do Brasil. Eram 24 e vinham numa grande caixa. Cada caneta tinha o nome das cores escritas. Fiquei muito intrigado e feliz com uma cor: o marrom. Era muito parecido com o castanho mas era marrom. Devia ser muito rara. Claro que toda a gente queria usar as minhas canetas e eu emprestava-as sempre. Gostava que mas pedissem e gostava de partilhar. A professora proibiu que as emprestasse pois os outros meninos podiam estragá-las. A verdade é que eram resistentes e ainda “sobreviveram” durante muito tempo. Na escola os outros meninos gostavam dos meus desenhos. Lembro-me de desenhar todos os meninos numa roda, todos muito redondos.

Quando não estava na escola tinha sempre companhia. Brincava com amigos meus da terra ou com o Tó. O Tó é filho da M.C., uma senhora que casou com o filho da minha vizinha do outro lado da rua. Apesar de morar na cidade a M.C., ia muitas vezes àquela casa e como esteve grávida logo à seguir à mãe, tornaram-se amigas. A M.C. era dona da “Floresta”. Este era um sítio encantado mesmo no coração da cidade. No rés-do-chão do prédio ficava um infantário onde andavam muitas crianças. Era um sítio enorme, quase mágico. Para lá chegar, ia com a minha mãe que tocava a uma campainha. Depois percorríamos um estreito corredor que parecia não ter fim e chegávamos à sala mais ampla que alguma vez tinha visto. Lá dentro as crianças corriam e brincavam felizes. Acho que nunca tinha visto tantas crianças juntas. Depois da sala havia um jardim. O Tó foi um dos meus grandes amigos. Passamos muitas tardes a brincar juntos, ora na “Floresta” ora na casa dele, que estava cheia de relógios. A M.C. adorava conversar e passava longas horas a conversar com a minha mãe. O Tó tornar-se-ia uma das pessoas mais cultas que conheço.

Os meus pais eram pessoas cheias de amor. Educaram-me com muita liberdade. Raramente era castigado. Nunca o meu pai ou os meus avós me bateram. Uma vez o meu avô materno tentou. Eu estava a brincar no chão ao lado do meu irmão e atirei uma pedra ao ar. Essa pedra caiu na cabeça do meu irmão. O meu avô achou que eu devia ser castigado e correu atrás de mim para me bater. Felizmente não me conseguiu apanhar senão tinha apanhado na certa. Disse à minha mãe “Ele tem 5 anos já é um homem e não pode fazer estes disparates”. A minha mãe sabia que eu não tinha feito por mal e não me castigou. Desta vez. Houve outras em que não foi tão compreensiva. Uma vez deu-me umas palmadas porque eu parti umas chávenas pequeninas que tinham vindo da China. Eram engraçadas porque eram muito fininhas e tinham umas caras no fundo. Outra vez deu-me umas palmadas porque eu desenhei ondinhas nas paredes simples do corredor. Acho que não gostou e não percebeu que assim o corredor ficava mais bonito.

A última vez que apanhei palmadas da mãe foi quando andei no Paúl a apanhar peixes. Já devia ter uns 12 anos. As águas estavam a descer e os peixes estavam presos em poças. Eu andei com a água pelos joelhos no terreno ensopado a apanhar peixes enormes e lindos. Estraguei os ténis e a minha mãe não percebeu que os peixes valiam bem 3 pares de ténis daqueles e deu-me umas valentes palmadas.

O Paúl era outro sítio mágico que se via da janela do meu quarto e onde paravam muitos animais. Era um verdadeiro paraíso cheio de aves que lá paravam na Primavera.


Comentários

Nuno Amado disse…
Continua de pé a tua vinda a Oeiras, para depois irmos para o Amadora BD, certo?
:)
Era para marcar horas. Dava-me jeito que estivesses na estção de Oeiras entre as 10 e as 11 de Sábado!

Abraço
PIRII disse…
apenas uma vez a minha mãe me bateu, em jeito de bofetada porque eu não queria ir para a escola.
Frankenstaquio disse…
Bongop,
está de pé e no sábado vai entrar no comboio do Cais do Sodré em direção a Oeiras às 10horas.

Pirii,
Não sou fã da violência mas as que apanhei foram poucas e só me fizeram bem. Acho que uma palmada na altura certa pode ser muito terapêutica.

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