A FRONTEIRA DE ÁGUA

Caminhava lentamente. O terreno era íngreme. Estava descalço. Os pés doíam-me. Caminhava lentamente por terra mal batida, amaldiçoada e de uma esterilidade tóxica.
Andava nú e levava um braço partido ao peito. No gesso alguém tinha escrito “amor de mãe” dentro de um coração roxo. Foi o meu irmão.
Vagueava despido com um braço fracturado e uma mão pendurada. A outra ia dentro do bolso da minha pele nua.
Arrastava-me em direcção ao não-sei-quê que é o fim dos dias quando o chão deixou de me magoar os pés. Porque já não era terra o que estava sob os meus pés, era água.
De repente corria pela água sem dores nos pés. Corri e corri e corri. Pela água. Até já não haver nada no meu campo de visão que não fosse água. Até não haver nada que não fosse água. Até o meu mundo ser água. E eu ser água dentro do meu mundo de água. E tinha pensamentos de água. E parei. Estava em paz. Assim é a morte.

Comentários

João Roque disse…
Só pode ter sido um pesadelo...

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