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Parte II: A alforreca



Contei-te naquele dia. No dia em que vimos a alforreca.


Estávamos no Parque das Nações. Por causa do que já sabias. Da adolescência imersa em tecido adiposo, por causa da voz que me dizia "porca gorda". Contei-te tudo. Contei-te quando o puto passou de bicicleta por nós. Baixei os olhos para o chão de tábuas espaçadas entre as quais se via o rio. Foi então que a vi, a alforreca.

Contei-te a única coisa que te tinha ocultado naqueles anos.

Tu compreendeste-me. Não me julgaste. Disseste: só nos torna mais iguais. Porque não me contaste antes?


Não sei o que te disse. Mas sei a verdade: tentava fugir daquele lugar. Daquela pessoa e daquelas acções que verdadeiramente me envergonhavam. Se te tivesse dito a pessoa que tinha sido saía da minha imaginação e tornava-se real. E depois... Depois podia não conseguir fugir dela. Tive medo que mesmo sem querer começasses a controlar os meus hábitos alimentares. Te tornasses meu carcereiro só porque te preocupavas comigo. Acho que fiz bem em não te contar. Não sei se alguma vez vais conseguir perceber o quão difícil é. Não fazes ideia do caminho que se percorre num sítio sombrio onde a luz é uma voz cruel que te diz sempre duas únicas palavras. Duas únicas, sonantes e dolorosas palavras.

Comentários

Tiger! disse…
Ah! Eu não acredito...agora percebi! Não é fictício, bem real. Eu se interpretei bem o que escreves, bom, sei do que falas...
Abraços
Graduated Fool disse…
Gosto destes teus textos, com este tipo de escrita. Muito bem.

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