Tu ensinaste-me...
...que a vida é uma aventura para viver sem medos e que no fim vai ficar tudo bem. Porque, no fim, fica tudo bem. E foi só isso que eu precisei, a tua garantia.
Passaram doze anos, completos neste mês. Eu ia entrar no Bloco Operatório. Ainda pensava no P.S. e se ele estaria à minha espera quando saisse. Independentemente do estado. Eu estava uma pilha. Tinha medo. Pedi a Deus, talvez tenha sido o último pedido, para ser menos sensível, para não sentir tudo com aquela intensidade esmagadora. Depois os médicos com as batas, a contagem descrescente até ao esquecimento. E lá estavas tu. Um completo desconhecido a dizer-me o que escrevi, que tudo ia ficar bem, só tinha que acreditar em mim e tornar-me-ia naquilo que quisesse. Tinhas um ar descontraído. Usavas óculos e tinhas uma camisa havaiana, uns calções largos e, o que melhor me lembro, uns cabelos encaracolados e negros.
E correu tudo bem. Sai da sala de operações. Lembro-me de ver, vagamente, algumas caras conhecidas enquanto despertava. O P.S. não estava. Veio depois. Mas já não era preciso. Eu agora não precisava. Durante a operação tinha passado a ponte do antes para o depois, do puto inseguro e medroso para o jovem adulto confiante. Nunca desisti de te procurar. Guardei a tua visita em segredo este tempo todo. Talvez a intensidade da procura tenha diminuido com o passar dos anos. Achei que podias ter outras formas. Talvez pudesses ser um bocadinho diferente daquilo que sonhei. Mas não. Eras tal e qual. Reconheci-te mal te vi e hoje os teus lábios são os meus e os meus dedos penteiam os teus cabelos encaracolados, pretos e rebeldes.
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