O fato e a boina
Um elevador sobe, uma campainha toca e uma porta abre-se depois de muito tempo. Fechar-se-há dez minutos depois…definitivamente.
-Olá…
-Olá. Voltaste?!
-Voltei.
- Por causa do fato? Ou…
-Queria dizer-te que voltei porque me preocupo contigo. Queria dizer-te que quero saber se está tudo bem contigo, queria dizer-te que tens o meu ombro e que estás no meu coração…
- Eu tenho…
- Espera. Queria, juro que queria muito ter a tua amizade. Queria…mas não consigo.
- Porquê? Não me vais dizer que te sou indiferente? Ou vais dizer-me que me odeias?
- É o teu hálito. Quando cortas com a cebola?
- Eh! Eh!
- Vou dizer-te só que não consigo. Que gostava de ser uma pessoa maior… mas que não consigo. Que todas as minhas lindas filosofias de viver o presente, de esquecer aquilo que mais nos magoa de andar em frente são muito saudáveis e consigo aplicá-las muitas vezes e em muitos casos…
- Mas não comigo? Porque eu sou o monstro mau que te fez tanto mal. Tudo só porque tive a coragem de andar com a minha vida para a frente. De seguir os meus sentimentos. De lutar! Sempre defendeste isso, hipócrita!
- Não, não é isso. Estou feliz por ti. Por ver que estás bem. Não te culpo por teres seguido os teus sentimentos. Só não consigo deixar de me lembrar que esmagaste os meus no teu caminho. Que lutaste contra mim, que me maltrataste e desrespeitaste na tua…
- Eu nunca quis…
-Eu sei. Fui eu que abri a caixa… Não te culpo. Mas não sinto. Não sinto nada por ti. Não reconheço a pessoa que és. Recordo-me da pessoa que foste com saudade. Das pessoas que fomos… Do mundo onde vivíamos. Mas somente isso. Já não existe nada aqui.
Sim, vim buscar o fato.
-Espera. Pega, a tua boina de pintor. Só falta o pincel.
-A boina! Já nem me lembrava que existia. Como é que ela ficou para trás? Foi a ela que te agarraste na minha ausência?
Colocou-ma na cabeça sem responder. Eu retirei-a à pressa. Afinal não fazia pendant com nada. Nada daquilo fazia...
Olhámo-nos à distância de um braço. Sem saber o que dizer, mais uma vez. Desta, não para evitar que o mundo desabasse mas para sentir o calor e o amor de uma parte de nós perdida e enterrada com o passar dos dias sobre um dilúvio no paraíso. Um dilúvio que separou um continente em dois, num planeta que depois foi atingido por um meteoro e se partiu ao meio.
Com um nó na garganta consegui dizer:
- Obrigado.
E os agora dois planetas olharam-se uma última vez sabendo que não podiam voltar a ser um mas sonhando que sim, que podiam parar os seus movimentos de translação em torno de sóis diferentes e que podiam fazer desaparecer todas as catástrofes com uma palavra, com um abraço, com um sorriso. Mas o tempo não parou, a palavra não surgiu. As rotas tinham que ser seguidas porque… porque... é essa a ordem natural das coisas...
- Adeus.
- Adeus, fica bem.
E a porta fechou-se como aqueles portais místicos que só se abrem uma vez na vida.
Brokeback much?
Comentários
"there so much past inside our present" - Feist
Mas se não fossem essas histórias, quem seríamos nós?
Abraço (à Boa da mistura conseguida, ao conto, à Vida!)
cumprimentos
Alfacinha bem-vindo! Esperamos que te percas muito mais vezes!
Estive aqui. GOSTEI!
Um abraço...
Eu há muito que evito escrever este tipo de textos porque me trazem fantasmas que quero longe. Provocam-me dores imensas e abrem feridas que não quero sentir.
Nem pensar quero. Há imagens, sons, cheiros, cores que prefiro manter muito afastados de mim.
:S
;)