Adeus Tia L

Ainda me lembro daqueles jantares em família quando era muito pequeno em casa da avó F. Tu estavas lá com o teu marido e os teus filhos, e primos da minha mãe, o Q e o Z.
Depois foste banida e passei a gostar ainda mais de ti. (Sempre gostei de outsiders). O relacionamento saudável que tu e a minha mãe conseguiam manter apesar das "regras da família" sempre me fez admirar-vos. Não sei como duas irmãs conseguiram passar mais de 20 anos sem se falarem.
Depois apareceu o cancro no teu peito e começaste a definhar. Via-te sempre, espaçadamente, mas cada vez mais fraca e débil. A minhã mãe foi uma das primeiras pessoas em quem confiaste, como sempre. Acho que a vias como uma filha e sei que ela olhava para ti como uma segunda mãe. Sempre gostei que tivessem o mesmo nome.
Fui ver-te perto do fim. Falavas devagar e respiravas com dificuldade. Ficaste feliz por me ver. A mim, que não gosto de despedidas. Disseste-me: "Não sei se te volto a ver..." Eu queria dizer-te que sim. Que voltava na próxima semana. Mas a mentira nunca foi uma coisa fácil nem natural para mim e disse: "Claro que sim. Todos voltamos a ver-nos em algum lugar". Devo ter parecido frio mas peguei-te na mão e acariciei-a. Não sabia o que mais podia fazer...
Onde quer que estejas quero que saibas que gosto de ti, tia L.

Comentários

F disse…
Sinto muito pela tua tia. É uma bonita homenagem que lhe prestas aqui.
João Roque disse…
Fico sempre comovido quando leio depoimentos como este, amigo.
Ainda por cima passei por um momento duplamente triste, há dois dias, quando fui ao funeral de uma Senhora de que muito gostava, mãe de um amigo de infância e o vi como vi, a ele, terrìvelmente doente...é a vida (e a morte)...
Abraço especial para ti, hoje.
Catatau disse…
Gostei muito de ler esta tua tão bonita expressão dos teus sentimentos. Aposto que ela também continua a gostar de ti.
Zé disse…
Um abraço para ti, F e um beijo para ela. Viva a memória!
Anónimo disse…
Sinto muito pela perda dessa pessoa tão especial para ti e creio que não estiveste frio mas sim há altura no último encontro...
Linda homenagem...
Abração grande
Miguel
ψ Psimento ψ disse…
É sem duvida uma grande homenagem que aqui fizeste, não pelo que está escrito, mas por aquilo que sentes!! Gostei muito daquilo que lhe disseste, é tão bom pensar que mais tarde ou mais cedo nos voltamos todos a encontrar em algum sitio, independentemente de crenças e religiões…
“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma…” incluindo a alma e essência de cada pessoa, pelo menos esta é a minha crença :)
Força e um abraço…
Graduated Fool disse…
Muito bonito, muito.
Não me parece nada que a tua frase tenha sido fria. Foi bonita.
Frankenstaquio disse…
Obrigado a todos. A tia Lídia já partiu à uns meses mas só agora consegui escrever o post. Recordo com saudade a forma calma e serena com que falava. Nunca se precipitava e sabia sempre o que dizer.

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