Retro X-tales
Sexta-feira, 13 de Novembro. Era uma manhã cinzenta e chuvosa, os carros circulavam devagar pelas estradas molhadas de Leiria. Eu corria evitando as poças de água, enquanto calculava mentalmente o grau de inclinação da chuva e a velocidade que deveria ter para me molhar menos, até que cheguei à ESEL.
Entrei e subi à sala 116, encharcado até aos ossos e bati. O Professor fez-me sinal para entrar enquanto recitava:
Será chuva?
Será gente?
Chuva não é certamente,
Parece-me um aluno
Com um ar doente!
Como não estava nos meus melhores dias, esbocei um sorriso amarelo e fui-me sentar sorrateiro, apesar de ter trinta pares de olhos fixados em mim.
Mas o meu Professor de Língua Portuguesa não parecia disposto a perdoar o meu pequeno atraso (cerca de 40 minutos) e dirigindo-se a mim perguntou:
- O que é a fonética?
O nome não me era estranho, olhando em volta reparei que a palavra fonética estava escrita no quadro em letras garrafais e então arrisquei:
- A parte da matéria que perdi por chegar atrasado?
O professor pegou no dicionário e leu:
- Fonética, substantivo feminino, ciência dos sons da voz humana.
E continuou:
- Vá ao quadro! Visto ter conhecimentos tão vastos vai-nos demonstrar alguns deles! Depressa, mexa-se!
Aquele dia já se tinha tornado um pesadelo oficial, mas como não tinha o poder de me evaporar, levantei-me para cumprir a ordem.
- Com essa velocidade toda não admira que chegue atrasado! Corra, tente chegar ao quadro hoje! – continuou.
Eu comecei a correr mas o quadro parecia cada vez mais distante. Com a correria não reparei numa mochila no meio do caminho, tropecei e bati com a cabeça em alguma esquina.
Comecei a ver tudo escuto e ouvia vozes que diziam:
-Estás bem?
- Consegues levantar-te?
- Estás a ouvir-nos?
- Sim, estou – tentei responder. Mas tudo à minha volta estava escuro e só conseguia ouvir ao longe a sirene da ambulância, que se foi tornando cada vez mais audível, e, por estranho que pareça, cada vez mais parecida com o som do meu despertador.
Abri os olhos e felizmente não estava numa maca mas sim na minha cama.
Tinha sido tudo um pesadelo!
Podia respirar de alívio, olhar pela janela e ver o sol lá fora. Só que lá fora não estava Sol e podia ouvir a chuva a bater na janela e os trovões ao longe. Olhei para o relógio, era sexta-feira 13 e eu já estava atrasado para a aula de Língua Portuguesa.
Leiria, 13 de Novembro de 1998
Comentários
ósculos e amplexos!
(p.s. gosto mesmo da música que têm aqui posto ultimamente!)
E realmente a música está supimpa!
Abraço.
Paulo, sempre gostei de L.P. mas tive alguns prof's tramados (como a fulano dos acetados inflamáveis) mas este prof era 5 estrelas!
Paulo e Catatau, ainda bem que gostam da música. Vamos tentar manter o nível!
Pinguim, também fiquei surpreendido! Obrigado pelos parabéns!
Graduated, infelizmente a realidade pode ser bem mais assustadora que o mundo dos pesadelos!
Abraços a todos!
Abraços