X sobe a calçada

Este mês de Agosto o X arranjou 2 empregos para ajudar a pagar a casa e mobila-la, por isso desde 2ª feira que anda assim, como a Luísa da Calçada de Carriche do António Gedão, trabalha de dia e de noite, sobe a calçada vem jantar e vai trabalhar, chega a casa despe-se, adormece acorda e vai trabalhar. A ele dedico este poema!



Luísa sobe,


sobe a calçada,


sobe e não pode


que vai cansada.


Sobe, Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada.


Saiu de casa


de madrugada;


regressa a casa


é já noite fechada.


Na mão grosseira,


de pele queimada,


leva a lancheira


desengonçada.


Anda Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada.


Luísa é nova,


desenxovalhada,


tem perna gorda,


bem torneada.


Ferve-lhe o sangue


de afogueada;


saltam-lhe os peitos


na caminhada.


Anda Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada.


Passam magalas,


rapaziada,


palpam-lhe as coxas,


não dá por nada.


Anda Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada.


Chegou a casa


não disse nada.


Pegou na filha,


deu-lhe a mamada;


bebeu da sopa


numa golada;


lavou a loiça,


varreu a escada;


deu jeito à casa


desarranjada;


coseu a roupa


já remendada;


despiu-se à pressa,


desinteressada;


caiu na cama


de uma assentada;


chegou o homem,


viu-a deitada;


serviu-se dela,


não deu por nada.


Anda Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada.


Na manhã débil,


sem alvorada,


salta da cama,


desembestada;


puxa da filha,


dá-lhe a mamada;


veste-se à pressa,


desengonçada;


anda, ciranda,


desaustinada;


range o soalho


a cada passada;


salta para a rua,


corre açodada,


galga o passeio,


desce a calçada,


chega à oficina


à hora marcada,


puxa que puxa,


larga que larga,


puxa que puxa,


larga que larga,


puxa que puxa,


larga que larga,


puxa que puxa,l


arga que larga;


toca a sinetan


à hora aprazada,


corre à cantina,


volta à toada,


puxa que puxa,


larga que larga,


puxa que puxa,


larga que larga,


puxa que puxa,


larga que larga.


Regressa a casa


é já noite fechada.


Luísa arqueja


pela calçada.


Anda Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada,


sobe que sobe,


sobe a calçada,


sobe que sobe,


sobe a calçada.


Anda Luísa,


Luísa sobe,


sobe que sobe,


sobe a calçada.





(António Gedeão)

Comentários

João Roque disse…
Caro F
bonita homenagem ao teu companheiro; estou certo que o mimas muito quando chega cansado...
Abraços.
João disse…
O poema é fantástico mas não consigo deixar de me lembrar das declamações pela Odete Santos :)

Ah pois, duas X é trabalho árduo, com a graça lá no alto! Firmes, amigos! A cidade até anda calminha mas o calor!
Abraços
Frankenstaquio disse…
Obrigado meu querido F! Se consigo fazar o que faço é porque tenho o teu apoio e carinho. Sem ti não conseguia de certeza!
Graduated Fool disse…
Tadinho. Uma canseira. Força nisso!

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