Damiting
Eu dobrei a esquina. A esquina ficou dobrada. Tu não a dobraste. Não tiveste tempo. Os teus olhos encontraram os meus antes que o fizesses. Foste sentar-te no banco ao meu lado. O Banco que ficava depois do dobrar da esquina para mim e antes do dobrar da esquina para ti. Não estávamos sentados juntos. Mas era o mesmo banco. Sentámo-nos juntos mas não estávamos juntos mas era o mesmo banco. Estava um lindo dia de sol. Mas não era o mesmo dia. Para mim era um dia. Para ti era o dia depois. O dia depois depois de não teres dobrado a esquina. De ainda não a teres dobrado. Tinhas-te sentado no banco antes de a dobrares. Sentaste-te porque os teus olhos encontraram os meus. Os teus olhos encontraram os meus. Mas não me viste. Não me consegues ver. Mas os teus olhos encontraram os meus.
Sentados no mesmo banco olhamo-nos nos olhos e dissemos amo-te ao mesmo tempo.
Sentados no mesmo banco em dias diferentes olhámo-nos sem que nos víssemos e dissemos amo-te, vendo o movimento dos lábios um do outro mas sem nos ouvirmos. Sem nos ouvirmos mas pelos movimentos dos lábios ambos percebemos as palavras que tínhamos dito. Ambos menos tu que percebeste que eu tinha dito ourivesaria. Mas eu percebi os movimentos dos teus lábios nitidamente. Tinham dito amo-te apesar de se terem movido como se tivesses dito vou-ali-comprar-o-jornal-e-já-volto. Mas eu sabia que tinhas dito amo-te.
Tu tinhas na mão um ramo de margaridas. Eu tinha um casaco de crochet aos quadrados que tinha comprado no www.magiadocrochet.blogspot.com. No casaco tinha pregado um girassol, junto ao peito. Antes de dobrar a esquina tinha ido à peixaria e tinha comprado um polvo. Estava com medo que se estragasse com o calor do lindo dia. E enquanto pensava nisto estendeste a tua mão e puxaste umas sementes do girassol, que começaste a roer.
As cascas que atiravas ao chão faziam ricochete e batiam no saco de plástico onde estava o polvo. O saco ficou com pequenos furos. Tu comias sementes sem parar. As cascas batiam no saco preto onde estava o polvo até que todos os pequenos furinhos se juntaram num furo grande o suficiente para que um dos braços húmidos do polvo, cheios de tentáculos saisse do saco. O braço trepou pela minha perna e veio enrolar-se ao meu pescoço.
Enrolou-se com força. Tu paraste de roer as sementes e olhaste para mim. Eu ficava roxo. Tu pensaste que talvez fosse melhor ajudar-me. Mas depois lembraste-te que estávamos no mesmo banco mas não estávamos juntos. Que era um lindo dia de sol mas não era o mesmo dia. Que me olhavas mas não me vias. Que eu te tinha dito ourivesaria mas que na realidade não me tinhas ouvido. Pensaste que não podias fazer nada. Mesmo que quisesses não podias fazer nada.
Não podias fazer nada. Não tinhas dobrado a esquina. Eu já estava roxo. Tu não podias fazer nada. Talvez pudesses continuar só a comer as sementes do girassol. Mas tentaste. Levantaste-te e saíste a correr em direcção ao quiosque e compraste um jornal.
Voltaste e eu já estava morto. O polvo tinha recolhido o braço para dentro do saco plástico preto. O girassol tinha perdido as sementes. E tu sem nada poderes fazer dobraste o jornal e bateste com ele no saco de plástico preto onde estava o polvo. O meu espírito voltou ao corpo morto e sem vida ressuscitando-o.
Disse-te amo-te. E tu disseste-me não tens de quê, mas para a próxima compra uma sardinha ou então lulas.
Comentários
Abraço
é um texto lindíssimo cheio de metáforas, mas acima de tudo cheio de um imenso Amor.
Que felicidade ser vosso amigo e testemunhar esse Amor.
Comoveste-me!!!!!
Abraço grande, grande, grande!