Fora do teu útero mas sempre no teu coração

Por vezes não é fácil cortar o cordão umbilical. A versão palpável corta-se logo à nascença. A outra vai-se cortando ao longo da vida (ou talvez não). Eu dei uma grande machadada no meu cordão umbilical algures na adolescência. Eu e tu, mãe, tínhamos que ser duas pessoas. E não uma só. Não foi fácil. Não foi fácil porque tu sempre inundaste tudo de amor. Porque ser teu filho é bom. Ser teu filho é ser amado incondicionalmente. Ser teu filho é ter colo sempre que se quer. Ser teu filho é ter todo o (teu) tempo no mundo.
Mas eu também tinha e tenho que não ser o teu filho. Tinha inevitavelmente que sair do teu útero, que não podia, ao contrário do que possas acreditar, proteger-me de tudo.
Acho que a primeira vez que percebi a "falibilidade" do teu útero foi quando me apaixonei aos 15 anos. Quando soube o que era amar. Aquilo que tu, desde que te conheço, sempre, e tão bem, soubeste. Percebi-me dessa "falibilidade uterina" porque ao contrário de tudo o que fazia, ou quase tudo - sim, porque, aos 6 anos, quando empurramos os gatos da avó para cima de um telhado de onde eles não conseguem sair, há que apontar responsabilidades exteriores ao self - não pude ir a correr contar-te.
NÃO PUDE IR A CORRER CONTAR-TE.

E não fui a correr contar-te. E isso foi tanto contra a minha natureza. Contra a relação translúcida que tínhamos construido. Não fui a correr contar-te, não porque não achasse que compreendesses. Sei que compreenderias. Não fui a correr contar-te porque sei que te magoaria. Que te faria sofrer. Sofrer como eu sofri. Crescer como eu cresci. Sofrer como eu cresci.
Foi essa a primeira vez que me deixei à margem do teu útero, cá fora, num dia de chuva de Maio. Fiquei cá fora, agarrado à minha bicicleta vermelha e amarela protegido debaixo duma varanda com a respiração pesada da fuga à molha e na companhia dele.

Nunca te contei. Não por cobardia. Não porque não compreendesses. Sempre me protegeste de tudo. O derradeiro escudo contra a dor e o sofrimento... que implicam crescimento. E eu preciso crescer, mãe. Tenho que ser a minha própria pessoa. Fora de ti. E tu parece que não querias deixar. Parece que não e eu nunca percebi o porquê. Nunca me deixaste crescer. Atirar-me ao chão. Avisaste-me dos perigos. Para vestir o casaco. Olhar antes de atravessar. Nunca me deixaste crescer...Mas eu cresci.


Nunca te contei. Não disse cara-a-cara. Explicar-te o porquê. Quis proteger-te. Ser, pelo menos uma vez o derradeiro escudo contra a dor e o sofrimento... que implicam crescimento. Tinhas o direito de saber. De te zangar, de chorar, de lidar com as coisas à tua maneira. Dentro de ti. Mas eu parece que não quis deixar. Parece que não e não sei se alguma vez saberás porquê.
Nunca te deixei saber. Atirar-te a verdade. Dizer-te que conheço os perigos. Que visto sempre o casaco. Que olho antes de atravessar. Nunca te disse a verdade... Mas tu sabe-la.
Amo-te mãe, parabéns!

Comentários

Francamente emocionado. Por motivos vários.

Pelo amor que qualquer filho devia dedicar à sua mãe (e no teu caso é sublime e patente), pela tua sensibilidade em não a quereres magoar mas, mais do que isso, teres percebido que fazendo tu parte da minoria, ainda que grande, do diferente, a não quisesses susceptibilizar ainda que sabendo que podes sempre contar com ela.

Pela assertividade em saberes ajuizar tão bem o corte do cordão umbilical comm o sempre amor que não se pode (nao deve) deixar de ter.

E ainda pelos momentos (como aquele em que ficaste só com a bicicleta) agarrando-te a ti mesmo num afogo que suportaste por amor... à tua Mãe.

E finalmente, porque do ponto de vista psicanalitico, e embora as pessoas não se meçam como uma bitola métrica, terias ganho o diploma de "Adulto" porque estão lá todos os ingredientes, sobressaindo a maturidade e sensibilidade, o que no teu caso reforça a qualidade devido ao facto de tudo ter começado muito cedo (esses pensamentos, essa preocupação pelo bem estar alheio e nao apenas o egoismo de nos assumirmos quer os outros queiram quer nao sem cuidarmos primeiro de preparar o campo).

Admiro-te agora mais pelo que escreveste. E confesso-te uma coisa: nem eu sei se tenho essa assertividade ou se conseguiria passar a mim proprio o diploma psicanalitico de Adulto (mas também tem a ver com factores como a estrtura da personalidade, e ha pessoas mais frageis e vulneraveis, como é o meu caso).

Parabéns.
Não por te eteres emancipado, mas pela forma como soubeste faze-lo, genuinamente e com amor, apesar de algum sacrificio pessoal em pequenino.

Amo esse teu lado humano por isso. Vais longe. És adulto.

Um grande abraço, especial e comovido.

Daniel (Lobinho)
Kapitão Kaus disse…
Texto emotivo e sublime. Que no fundo diz tudo aquilo que, para nós, é essencial: o preservar, o proteger quem amamos.

Abraço:)
Graduated Fool disse…
Migo, adorei ler este texto.
Bem, depois de uma leva de reuniões surreais de avaliação, que me tiraram do sério, não deveria ler nada assim, mas sim dedicar-me a algo básico que não me fizesse pensar. Mas comecei a ler e não consegui parar. Está tão bom, tão adulto, tão sensível, tão bonito.

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