Deixei-te cair e agora gemo
Deixei-te cair até à última noite. Via-te escorregar todos os dias mais um bocado e como não sabia o que fazer não fazia nada. Apenas pensava: ela todos os dias escorrega um bocado e eu não sei o que fazer.
Não fiz nada durante muito tempo. Enquanto escorregavas. Até ao último dia. No último dia em que escorregavas e já quase não te podia tocar estiquei-me o mais que pude e estiquei os meus braços e agarrei-te pelo rabo-de-cavalo.
Em desespero por perceber que se naquele dia escorregasses não estarias lá no dia seguinte tentei então puxar-te pelo rabo-de-cavalo. E tu gemeste de dor. Já não te podia puxar sem te magoar. Mas podia ficar agarrado a ti.
E assim fiquei, com os braços esticados. Dia após dia. Mas também eu comecei a gemer de dor. E assim vivíamos os dois. Entre a tua dor quando te puxava e a minha dor por não te querer deixar ir.
E poderíamos viver assim, na dor, até ao fim dos meus e dos teus dias. O não te conseguir içar e o não te poder largar poderiam ser um problema. Mas ambos sabíamos que tinha uma solução.
Larguei-te.
Mas hoje, depois de tantos dias os meus braços ainda estão esticados e tento alcançar-te no vazio. E de vez em quando ainda gemo de dor.
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Abraço.