A longa espera – parte I

Viajávamos num monovolume. Fizemos muitos quilómetros com muitas paragens em locais novos, diferentes e desconhecidos.

Algures numa monótona estrada do Alentejo algo correu mal. Saímos da estrada a dar piruetas em alta velocidade.

O meu corpo ficou longe do teu. Levei a mão direita ao peito e senti algo húmido. Aproximei a mão dos meus olhos porque não conseguia virar a cabeça e vi que era sangue. O meu peito estava aberto e sangrava. Chamei por ti. Tu não conseguias vir ter comigo. Mas disseste que se gostasse realmente de ti não precisavas de vir: a ferida do meu peito fechar-se-ia e eu levantar-me-ia sozinho e que seria eu a ir buscar-te. Seria eu a socorrer-te. Fiquei ainda mais aturdido com o que disseste do que com as piruetas que tinha dado dentro do monovolume. Duvidei que conseguisse fazer o que dizias e, sem ti, perdi-me no meio das dúvidas.

Mas pensei: não posso acabar a minha vida aqui. Caído num montado, entre uma azinheira e um sobreiro. E mandei a ferida do meu peito fechar-se e ergui-me. Não sei quanto tempo demorei. Mas levantei-me. E ia buscar-te. Ia levantar-te do chão e limpar as tuas feridas. E íamos começar a viajar num Smart porque são muito mais fáceis de manobrar.

O teu corpo ficou longe do meu. Segui o som da tua voz porque a minha visão estava turva. E quando cheguei e olhei para ti fiquei em choque: tinhas perdido o teu corpo no acidente. Ali só estava a tua cabeça. Vivias mas já não batia um coração no teu peito porque não tinhas peito. Só tinhas cabeça. Mas também tu tinhas sanado as tuas feridas. À parte de não teres corpo estavas bem. E eu disse-te: aqui estou para ti. Sarei as minhas feridas e estou aqui para ti. E tu disseste: agora é tarde. Agora não vale a pena. Podes sentar-te ao meu lado mas nunca mais deitas a cabeça no meu peito.

Eu olhei para ti incrédulo. Podia aceitar que não tivesses corpo. Mas não podia aceitar não poder adormecer com a minha cabeça no teu peito. E fiz a única coisa que sabia fazer…

Comentários

João Roque disse…
Há aqui algo de Ionesco, ou estarei enganado?
denim and shoes disse…
gostei do teu blog. parabéns. vou fazer por voltar....sempre.
Frankenstaquio disse…
Pinguim, foi só um cheirinho!

Obrigado D&S. Eu espero por ti! Sempre!
Abraço

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