A longa espera – parte II
Pensei que a tua cabeça ia rolar atrás de mim. Que não me querias perder. E que ias fazer qualquer coisa para me ter de volta. Tinha a certeza disso.
Por isso fiz o meu melhor. Corri. Corri e corri. Quando cheguei à estrada apanhei boleia do primeiro carro que passou. Fui direito a casa peguei em tudo o que consegui e fugi ainda mais um bocadinho. E pensei: ele vem atrás de mim. E corri para outra cidade. Mas tu sabias onde eu estava e eu pensei que podias vir atrás de mim. E mudei-me outra vez para outra cidade.
E mudei de roupa e de pele e comprei outros talheres. E tomei muitos banhos. E depois pensei: ele ainda pode vir atrás de mim. E deixei crescer a barba.
E pensei: ele ainda pode vir atrás de mim. Pode-me perceber numa multidão porque sabe que eu sou a única pessoa que está a fugir. E deixei de fugir. Olhei para trás pela primeira vez e vi que não corrias atrás de mim. Fiquei surpreendido. Fiquei em choque. Fiquei tão chocado que fui ao teu encontro.
E encontrei-te. Estavas onde te tinha deixado. No mesmo sítio. E eu sabia-o. E estive contigo. E podia-te abraçar. Mas não podia ser. Era a primeira vez que ia ao encontro de alguém. E percebi que não ias correr atrás de mim. Eu nunca antes tinha ido ao encontro de alguém de quem tinha fugido. Por isso em vez te abraçar empurrei-te. E fugi outra vez.
Pensei: se eu aprendi a voltar para perto de uma pessoa de quem passei tanto tempo a fugir também ele pode aprender a correr atrás de alguém de quem sente a falta.
Continuei a fugir. Mudei de casa. Comprei uma casa. E mobília. E adoptei outros gatos. E tentei entregar o meu coração a alguém. E aprendi a cozinhar.
E depois parei de fugir. Deixei de ver o ponto de partida de toda a corrida. E já não tinha intenção de cortar a meta. Francamente não sei se sou a mesma pessoa que saiu a correr do local do acidente.
Já não fujo. Mas tu nunca correste atrás de mim.
Hoje já não te espero. Tudo mudou. Eu mudei. Mas às vezes levo a mão ao peito e quando olho para os dedos ainda consigo ver as manchas de sangue do dia do acidente.

Ah...nunca mais entrei num monovolume.
Comentários
E é muito belo!
(...)
Pensei: se eu aprendi a voltar para perto de uma pessoa de quem passei tanto tempo a fugir também ele pode aprender a correr atrás de alguém de quem sente a falta."
Literariamente belo. Apesar da dor.
Abraço-te
Daniel: "No pain, no gain!" já dizia... o poeta, ou outra pessoa qualquer. Sei lá.
Abrço