A tua mão demora-se nos meus ombros
Nunca foste muito afectuoso. Sempre foste determinado. Apesar de seres emotivo o afecto nunca te caracterizou. Olhava para ti e via um homem alto, forte, educado e de uma tenacidade para mim desconhecida. Defendias aquilo que acreditavas com umas ganas... às vezes olhava para ti com admiração mas sempre me pareceste um bocado frio.
Lembro-me de uma frase tua acerca de mim. Disse um disparate qualquer quando tinha 5 anos. Um disparate muito feio. Porque aprendi a dizer o que penso desde muito pequeno. Talvez contigo. Porque sempre disseste o que pensavas e parecia que nada nem ninguém nunca te podia assustar. E eu disse aquele disparate feio. Quando pela primeira vez ameaçaste dar-me uma palmada. Não o fizeste mas eu disse o disparate na mesma. Tinha 5 anos e disse-te que devias ter morrido quando, tempos antes, tinhas estado doente.
Não sei se alguma vez me perdoaste. Mas o que me lembro de ti foi que disseste à mãe, que, com 5 anos eu ja devia saber o que dizia. Que já era um homenzinho. Que não tinha perdão. E eu senti o peso da responsabilidade. Talvez pela primeira vez. Vi que podia ser um homenzinho. Que aquilo que dizemos e fazemos pode ter consequências. Mas também vi um homem alto e inflexível, irredutível e avassalador que não conhecia o significado da palavra perdão nem a aplicaria com um "homenzinho" de 5 anos.
Sempre olhei para ti como um homem forte e corajoso que não precisava de nada nem ninguém e talvez por isso tivesse sempre pessoas à sua volta. Eras também um homem fugoso nas suas emoções, conhecido por todos como "Labareda". Palavra que tão bem te descreve.
Este ano conheci um lado teu diferente. Já te tinha visto enfrentar doenças com coragem e defender os teus interesses com determinação. Mas não tinha percebido que também amavas profundamente. Talvez porque penses que os homens não o devem demonstrar.
Mas no dia em que perdeste a tua companheira de uma vida a muralha que sempre te cercou desabou. Percebi que também podias sentir medo. Em poucos meses mudaste mais do que nos 30 anos em que te conheço. Hoje mostras as tuas vulnerabilidades. E quando pousas a tua mão nos meus ombros e deixas que se demorem sei que gostas de mim e que precisas de mim.
E eu, que sempre te achei tão pouco afectuoso deixo que a minha mão também se demore nos teus ombros e, percebo agora, sou um reflexo de ti, avô.
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