o Homem que lia almas

Acontecia. Muitas vezes. Desde sempre. Por isso ele poderia não saber que era diferente. Ou talvez soubesse e já se tinha esquecido. Ou ainda não se tivesse esquecido mas tentasse desesperadamente fazê-lo. Acontecia. Não acontecia com todas as pessoas mas acontecia com algumas. E era assim que acontecia:

Um dia por acaso ele conhecia alguém e olhava essa pessoas nos olhos. E ouvia as suas palavras. E sentia o seu cheiro. E talvez ao de leve lhe tocasse. E via tudo. Sonhos. Segredos. Atitudes. Competências. Perdas. Aspirações. Via o ontem, via o hoje e extrapolava o amanhã. Era assim que acontecia.

Não via só as coisas bonitas. Mas via tudo e a beleza da verdade total comovia-o e fazia com que aceitasse as pessoas como eram. Sem as julgar. Porque não via só as pessoas via as suas histórias e as suas razões. Não via uma pessoa como ela se apresentava naquele momento. Via-a com seis meses, ou com 3 anos. Via-a hoje, ontem e amanhã. Ele sabia e tinha presente que todos tivemos 3 anos. E 5 anos e 9 e 10 e 13 e 21 e 23. E não via só a idade vias as idades.

E via os medos das pessoas. Ouvia as mentiras que diziam a si próprias e em que elas acreditavam. Mas ele sabia melhor. E acedia com a cabeça.

E via os desejos das pessoas e o medo dos desejos e o porquê dos desejos e o porquê dos medos dos desejos. E via o ontem e o agora. E via o futuro e não fazia nada para o alterar porque sabia que tudo tinha o seu tempo. E mesmo quando lia as tragédias à distância de meses não fazia batota. Vivia o agora, abraçava o momento. Abraçava o outro.

Ignorava o futuro mas sabia-o.

Comentários

João Roque disse…
Intrigante e complicado...

Mensagens populares deste blogue

Mãe, achas que sou gay?