O louco e o tolo


Passava perto de um poço quando ouvi uma voz que gritava: socorro-orro-orro-o. Aproximei-me, debrucei-me sobre o poço e espreitei. Lá muito ao fundo vi uma cara branca num fundo escuro. Perguntei-lhe o que se passava, como tinha ido parar ali. Do fundo do poço a cara gritou-me bem alto: vai à tua vida-ida-ida-i. Fiquei estupefacto: mas então não estavas a gritar por socorro ó homem-mãe-mãe-ãe. Estava-ava-ava-a-respondeu ele. E que tens tu a ver com isso-so-so-o? Um gajo já não pode estar no fundo do poço a gritar por socorro sem que um parvo qualquer o venha chatear?-ar-ar-ar.

Virei-lhe as costas e fui à minha vida. Estava cheio de sede e sem paciência para demência. Não podia beber água daquele poço. De certeza que quando fizesse o caminho inverso ele ainda ali estaria e se precisasse de ajuda logo se veria. E fui à minha vida.
Fui à procura de um sítio para beber água. Uma água que não estivesse contaminada com H2Omem.

Pá a verdade é que demorei um bocado. Depois de encontrar o sítio fiquei para jantar. E bebi uns copos e tal. Acabei por ficar para dormir e no dia seguinte só havia um autocarro que ia na mesma direcção mas com sentido oposto. Pá, pronto. A vida não é linear. Passaram prái uns anos valentes sem passar ao pé daquele poço.

Não vou dizer que de vez em quando não me lembrava que o homem lá estava a gritar por socorro. Mas também quando me aproximei não quis ajuda. Não podia fazer nada, né?

Pá, mas prái uns anos valentes passei outra vez ao pé do poço. E só porque achei giro lembrei-me de lá passar. Para ver se o gajo ainda lá estava. Debrucei-me e espreitei.
Foda-se pá! Mandei um salto e caí de cú. Mais valia não ter espreitado. Não é que no fundo do poço estava um cadáver?

Também estava à espera de quê? Passaram-se uns anos valentes. E bem sei que o gajo não quis ajuda... E agora de quem é a culpa?

Comentários

João Roque disse…
Eu preferia que se tivesse transformado num zombie...
Frankenstaquio disse…
Pinguim, às vezes é melhor ficar na dúvida. Outras é melhor acabar com as ilusões.
Mas sinto-me bem pela espreitadela. Fiquei a perceber que os meus tempos não são iguais nem compatíveis com os de algumas pessoas e que faça o que fizer não voltarei a ter o respeito da pessoa que estava no poço. E não perco tempo com pessoas que não me respeitam.
Mas não deixei de ficar triste...
Abraço

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