Desculpa, nós conhecemo-nos, não?

Perguntei à medida que te dava três leves pancadinhas no ombro.

Tu (se eras mesmo tu) viraste-te rapidamente mas sem surpresa. Estavas diferente. Tinhas a diferença que tem quem faz escolhas que nós não conhecemos mas que percebemos terem sortido alguma diferença por terem sido tomadas.

Tu olhaste-me nos olhos procurando ver a minha alma. Mas não conseguiste. Não conseguiste ver a minha alma. Numa fracção de segundo colocaste-te 3 hipóteses: 1.ª não tem alma, 2.ª não consigo ver-lhe a alma e a 3.ª reprimiste por te parecer muito assustadora. E como tal disseste:

- Não, acho que não. Se te conhecesse ia lembrar-me de certeza.

- Pois, mas tu pareces-me familiar. Já devemos ter feito uma viagem juntos. Talvez te tenhas sentado ao meu lado numa viagem de metro. Ou no comboio. Talvez daquela vez que fui…

- Não creio. Não. Não me parece. Desculpa. Não tenho tempo para…

- Tens razão. Não nos devemos conhecer. Desculpa.

Virei costas e segui o meu caminho algo desapontado. E com um estranho sabor amargo na boca.

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