My story: Aberração gorda

Aqui fica mais um excerto de um capítulo do livro da minha vida (com a respectiva ilustração).

Mas fora da minha protegida aldeia reparei que as pessoas não eram muito simpáticas comigo. Não me conheciam e parece que só conseguiam ver uma característica minha que até então não tinha tido muita importância: a gordura. Muitos miúdos que eu não conhecia chamavam-me “Gordo”. A palavra gordo passou a ser a palavra que mais ouvia. Acho que no início não ligava. Mas a palavra gordo começou a estar em todo o lado. Juro que havia miúdos que atravessavam a estrada para me chamarem gordo.

“Gordo!”

Comecei a olhar para mim. Estava de facto gordo. Aliás, não conhecia nenhuma criança tão gorda como eu. Só a Gina. A Gina andava no 6.º ano e era gorda. Muito gorda. Diziam que ela era assim porque tinha uma doença. E eu olhava à minha volta e não via ninguém como eu. Havia meninos gorduchos, ou com banhas. Mas nenhum era tão volumoso quanto eu. O meu tronco tinha três grandes lombas que se sobrepunham umas às outras. E as minhas maminhas eram maiores do que as de qualquer outra criança. Mesmo das meninas. Era diferente de toda a gente.


Comentários

João Roque disse…
Gordo...evoluíste bastante, num bom sentido...
Deliciosa, a história, e a ilustração.
zoninho disse…
este fragmento da tua história tem pontos que poderia tomar como meus. só que eu não era gordo. era pobre. e as crianças são cruéis... e ninguém fazia ideia do que poderia ser o bullying. enfim, histórias passadas que não movem moinhos!
Frankenstaquio disse…
Obrigado, Pinguim. Gosto de pensar que evoluí.
Zoninho, todos temos as nossas "cruzes" (credo) e somos quem somos por causa delas ou apesar delas.
Abraços

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