A propósito de irmãs que se "passam dos carretos"...

As irmãs do post de ontem fizeram-me lembrar duas outras irmãs, retratadas por Paula Rego, que tomaram atitudes inesperadas, incompreensíveis e, por incrível que pareça, ainda mais macabras. As irmãs Papin da pintura "The Maids" (As Criadas) de 1987.

A sala onde se desenrola a acção é inegavelmente portuguesa. As criadas são inspiradas em personagens bem reais, as irmãs: Christine Papin e Léa Papin, duas domésticas ao serviço de uma rica família parisiense.

À primeira vista poderiam parecer duas simples raparigas mas a razão por que se tornaram conhecidas foi, no entanto, bastante sinistra. Um dia, durante a ausência do patrão e sem motivo aparente assassinaram brutalmente a mãe e a filha da família que as empregava.

O psicanalista francês Jacques Lacan estudou o caso e explicou que o incidente poderá ter sido despoletado pelo, aparentemente inofensivo, corte eléctrico que terá sobressaltado as irmãs. Ter-se-há tratado de um caso de duplo delírio: uma espécie de paranóia que acontece em relações familiares muito próximas na qual a percepção da realidade fora da relação é pouco relevante quando comparada com o que se passa dentro da relação.

Jacques Lacan analisou a natureza simbólica do crime cometido pelas criadas. As irmãs expressaram metáforas de ódio envolvendo-se fisicamente de forma selvagem. A sua fixação na relação entre a mãe e a filha por comparação com a sua própria relação conduziu-as a um delírio de ciúme e ódio levando-as a mutilar os corpos, rasgando literalmente os olhos das vítimas e espalhando o sangue de uma pelo corpo da outra.

A história chegou a Paula Rego na forma de uma peça de teatro, “As Criadas” escrita por Jean Genet em 1947. A pintora focou-se, tal como Jacques Lacan, na proximidade (entre si e entre as patroas) pouco natural de Christine e Léa Papin.

Comentários

Nuno Amado disse…
Andas tenebroso!
:|

Abraço
João Roque disse…
Sempre liguei esta tela de PR à peça de Genet...
Frankenstaquio disse…
Bongop,
nem te digo nada.

Pinguim, já dizia a outra: não há coincidências!

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