My story #09: Aberração gorda


Aos 10 anos fui para o 5.º ano de escolaridade. Saí do pequeno abrigo de onde tinha estado, da minha pequena escola de aldeia e do mundo abrigado e protegido que conhecia. Uma das imagens que tenho na cabeça é a de uma redoma no espaço. A Terra tinha-se fragmentado mas eu conseguia muito bem perceber quem eram as pessoas que estavam dentro daquele pedaço de terra com uma redoma transparente que flutuava no espaço e onde estavam outros pedaços da terra também com redomas. Sabia muito bem quem estava dentro da minha redoma. Conseguia, naquele tempo enumerar todas as pessoas da minha vida e colocá-las na redoma.

Então cheguei a uma escola nova com muitos meninos. Na minha turma estavam dois meninos da primária, o inteligente David e o meu antagonista Pedro d’Amélia. Eu tornei-me muito amigo do David, que se dava muito bem com o Hélder. Eles eram vizinhos e viviam fora do centro da aldeia. Como não tinham irmãos passavam muito tempo juntos, tal como eu e o Nelson. Tornar-nos-íamos todos amigos, quando o Nelson e o Hélder chegassem à nossa escola no ano seguinte. Íamos formar um grupo como “Os cinco” ou os protagonistas de “Uma Aventura…” e viveríamos muitas aventuras a explorar as redondezas da nossa aldeia. Nas férias encontrávamo-nos muitas vezes os quatro. Uma altura começámos a encontrar bilhetes escritos em código e íamos os quatro para o sítio que os bilhetes indicavam. Na realidade era eu que escrevia os bilhetes e que os escondia durante as manhãs. Quando nos encontrávamos à tarde e explorávamos a aldeia na nossa bicicleta eu fazia de conta que não sabia de nada. Não gostava de os enganar. Mas a excitação que vivíamos em encontrar o próximo bilhete com a pista que nos levaria para o local seguinte era mais importante. Adorávamos aquela aventura. E quem seria o autor dos bilhetes? Os meus amigos conjecturavam tantas hipóteses.


Mas fora da minha protegida aldeia reparei que as pessoas não eram muito simpáticas comigo. Não me conheciam e parece que só conseguiam ver uma característica minha que até então não tinha tido muita importância: a gordura. Muitos miúdos que eu não conhecia chamavam-me “Gordo”. A palavra gordo passou a ser a palavra que mais ouvia. Acho que no início não ligava. Mas a palavra gordo começou a estar em todo o lado. Juro que havia miúdos que atravessavam a estrada para me chamarem gordo.

“Gordo!”

Comecei a olhar para mim. Estava de facto gordo. Aliás, não conhecia nenhuma criança tão gorda como eu. Só a Gina. A Gina andava no 6.º ano e era gorda. Muito gorda. Diziam que ela era assim porque tinha uma doença. E eu olhava à minha volta e não via ninguém como eu. Havia meninos gorduchos, ou com banhas. Mas nenhum era tão volumoso quanto eu. O meu tronco tinha três grandes lombas que se sobrepunham umas às outras. E as minhas maminhas eram maiores do que as de qualquer outra criança. Mesmo das meninas. Era diferente de toda a gente.

Em casa os meus pais continuavam às voltas com o problema do meu irmão. Tinha entrado para a primária e ainda “não comia”. Não podia levar para a escola pão com chouriço ou fiambre. Só com manteiga. Não comia o ovo estrelado todo, só a gema. Tinha que comer muitos frutos secos e outras coisas. Eu às vezes apanhava a minha mãe a chorar depois de, mais uma vez, ter tentado em vão que o meu irmão comesse só um pedacinho de carne.

Eu acho que nesta altura odiei o meu irmão. Talvez ódio seja uma palavra muito forte. Acho que no fundo sempre gostei dele. Mas ressentia-me daquele comportamento. Não conseguia compreender como é que alguém podia ser tão egoísta ao ponto de não satisfazer um pedido da minha mãe. Era uma coisa tão simples e ia fazê-la tão feliz. Mas nada. Ele não cedia. Nem um milímetro. A minha mãe negociava com ele, fazia contratos disto e daquilo. Ele até podia concordar mas na hora de meter a comida à boca, não conseguia. Será que ele não podia perceber que estava a fazer a pessoa mais maravilhosa do mundo sofrer?

Eu por outro lado deixava a minha mãe feliz. Não a preocupava. Comia tudo o que tinha no prato. E repetia. Comigo ela não ia ter que se preocupar. Nunca. Não ia fazê-la chorar.

Os meus pais continuaram a levar o meu irmão a muitos médicos mas nenhum resolvia o problema. O meu irmão continuava igual a ele. Um dia eu estava com a minha mãe no consultório de um dos médicos. Depois de o meu irmão ter passado numa máquina de ver o corpo por dentro mandou-me subir a mim. Eu lá fui. Depois ele disse à minha que se estava a preocupar com o filho errado. Acho que nenhum de nós percebeu o que o médico queria dizer.

Nesta altura comecei a ter um grande terror: as aulas de Educação Física. Primeiro havia o terror de me despir nos balneários e ter todos os meninos a rirem-se do meu corpo gelatinoso. Resolvi isso levando o fato de treino já vestido. Aliás, o fato de treino tornou-se o meu vestuário preferido. A verdade é que deixei de ter alternativas. Ia às lojas mas as calças não me serviam. A minha mãe tinha que me comprar calças de adulto, que ficavam muito compridas. Mas a mãe era uma boa costureira e deixava tudo à medida. As calças que usava eram o número 48. Depois a mãe começou a fazer as minhas calças. Eu gostava delas mas sentia-me um bocadinho preso. Uma vez a jogar ao berlinde rompi-as. Mais uma vez todos os meninos se riram de mim.

Para mim um dia bom passou a ser aquele em que ninguém reparava em mim. Mas eram raros esses dias. Eu sempre fui uma pessoa com sentido de humor. E percebia que já que as pessoas tinham que se rir de mim poderiam rir-se quando eu quisesse e comecei com as piadas. Desenvolvi o meu sentido de humor porque tinha tanto medo que se rissem de mim que fazia com que as pessoas se rissem comigo.

Apesar de permanecer o mínimo tempo possível no balneário ainda havia as aulas. Comecei a temer os dias em que tinha aulas de Educação Física. Era sempre o último a ser escolhido para as equipas. Ninguém me passava a bola nos jogos de equipa. E se passavam eu não corria o suficiente para a apanhar. Depois havia a ginástica. Não conseguia fazer cambalhotas nem pinos. Era muito gozado naquelas terríveis aulas.

Comentários

João Roque disse…
Adoro estas tuas histórias do passado...
Alexandre disse…
Eu também.
Sérgio disse…
Se é real, espero que tenhas emagrecido.
E não entendo como é que os pais não percebem quando os filhos estão gordos demais.
Quando chegou ao ponto de ela ter que te fazer roupa não percebeu que já era um problema grave???
PIRII disse…
como sempre, deliciosas histórias.

e os bilhetes anónimos: excelente.
ψ Psimento ψ disse…
Fico contente por teres superado essa fase e por teres ficado em forma ehehheh. Acho que a adolescência é complicada para todos mas quando se é o alvo desse tipo de atenção ainda pior. Também me lembro de termos um rapaz e uma rapariga muito gordos na turma e sei que por vezes eram gozados. Lembro que uma vez a própria professora se virou e disse "Oh Gordo, já estás a falar desde o início da aula..." Toda a gente se riu claro e a verdade é que ele nunca mais falou, mas imagino a humilhação por que deve ter passado. Essa estratégia de escolha de equipas devia deixar de existir. Não sei porque os professores de educação física ainda a usam. Um abraço
Frankenstaquio disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Frankenstaquio disse…
Pinguim: obrigado!
E é tão bom ter-te de volta!

Alexandre: que bom!

Sad, "My story" ainda vai no adro... Não percas os próximos episódios! ;)

Pirii: :)) Tinha que fazer alguma coisa para nos entreter!

Psi: é mesmo complicado. Mas também é verdade que o que não nos mata torna-nos mais fortes. Que professora bera que vocês tiveram! No more profs beras!

Abraços a todos
Filipe Miguel disse…
é impressionante mas, esta é a historia da minha vida. "o Gordo" só saiu do vocabulário dos meus colegas quando cheguei à faculdade.

E já agora sem querer entrar em confronto com ninguém, longe disso, "sad eyes" não sabes o que estas a dizer, as coisas não são assim tão lineares.
Frankenstaquio disse…
Filipe,
esta história é a história de muita gente, infelizmente. Também já me coloquei muitas vezes a questão do Sad, quer em relação a mim ou a outras crianças e só posso concordar contigo. As coisas não são nada lineares.

Obrigado pelo comentário. Abraço
Marco disse…
Revi-me na tua história. Na minha adolescencia cheguei a ter que comprar calças por encomenda (58) pois as lojas normalmente não tinham esses numeros. E era um martirio quando tinha que ir comprar roupa. Na altura não havia os XXXL. Felizmente consegui ultrapassar isso e hoje já visto o 42 :-)
Frankenstaquio disse…
Marco,
Sei que não é fácil fazer esse percurso "numérico".
Abraço

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