My story #11: O rapaz do rato

Depois da partida do Nelson acho que me propus ajudar todos os animais. Lembro-me de recolher uma pequena cobra e um morcego ferido. Tive uma grande paixão por patos. Achava-os o epíteto da liberdade. Por esta altura os meus pais compraram-me dois patos marrecos que eu adorava. O Mickey e o Pimpão. As penas do Mickey eram iguaizinhas às dos patos bravos. Passava imenso tempo a observá-los. Construíram um lago para eles que se via pela janela do meu quarto e eu adorava ficar a vê-los a nadar. Também tive outros patos (dos mudos). Por essa altura vi um documentário sobre o austríaco Korand Lorentz e fiquei encantado com conceito de imprinting. Achava que era maravilhoso passar os dias com bandos de gansos. Pensei durante muito tempo que queria ser veterinário.
O facto de morar perto de um paúl deve ter-me influênciado. Passei muitas tardes sozinho a explorar este espaço que tão maltratado é. Adorava apanhar cágados e tive alguns no grande quintal da “casa velha”.
Um dos meus animais de estimação preferidos foi um rato branco. Chamava-se Martin, como o ganso do Nils Holgersson da escritora sueca Selma Lagerlöf. Obviamente que me identificava muito com o Nils. O Martin andava sempre no meu ombro quando estava na aldeia.
A minha mãe não era fã de ratos independentemente da cor. Proibiu-me de o ter em casa. Então o Martin pernoitava no quintal de casa numa coelheira vazia. Era muito inteligente. Podia estar solto no quintal e não fugia. Às vezes levava-o para casa às escondidas da minha mãe. Durante a noite dormia na gaveta da mesa-de-cabeceira. Uma vez a minha mãe veio dar-me um beijinho de boas noites e teve que abrir a gaveta. O Martin saltou de nariz arrebitado e a minha mãe mandou um salto.
Lembro-me que quando o Martin morreu, a minha mãe, que não gostava de ratos, chorou com pena. Eu também fiquei triste. Para um rato era muito inteligente e fomos inseparáveis por quase dois anos.

Comentários

Alexandre disse…
adoro ler estes pedaços íntimos de vida
Frankenstaquio disse…
:)
Eu também gosto de os partilhar!
João Roque disse…
Continua a deliciar-nos com as tuas histórias: é muito bom, lê-las!
Frankenstaquio disse…
Thank you, Pinguim!

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