My story #12: Religiosidade assombrada
Uma vez, o Gil desafiou-nos, a mim e ao David, para irmos a uma casa assombrada no intervalo das aulas. Era uma enorme vivenda que estava abandonada e diziam que as rosas do jardim deitavam sangue e que havia um fantasma. Eu não estava muito interessado em ir mas como o Gil disse que era só para rapazes corajosos, lá fomos. A casa era de facto enorme e era muito fácil entrar lá dentro porque as portas e as janelas estavam abertas. Lá dentro estava tudo desarrumado e com ar decadente. No princípio tive medo mas depois percebi que não havia fantasma nenhum. Decidi encher a minha mochila com fotografias antigas e uns cartões que estavam no chão. O David e o Gil disseram que era melhor guardar segredo mas eu não percebia porquê e quando cheguei à escola mostrei a todos o que tinha trazido da casa assombrada. Era um rapaz corajoso e toda a gente devia saber disso. A aula a seguir era de Religião e Moral. A professora soube que tínhamos ido à casa assombrada. Não ficou muito feliz e disse que ia chamar a polícia. Parece que tínhamos feito uma coisa muito grave, afinal. Tínhamos assaltado uma casa! E eu tinha roubado coisas de dentro da casa. Ela disse que se eu começasse a ir à catequese não nos entregava à polícia. O David, que era sempre a minha bússola moral, estava com um ar muito comprometido. Ele ia sempre à catequese.
Nem os meus pais nem eu dávamos muita importância à religião. Íamos à missa no Natal mas eu achava aquilo tudo muito aborrecido. Por causa do episódio da casa assombrada comecei a ir à catequese. Quem nos ensinava a catequese era o Padre R., o mesmo que me tinha baptizado. Ele tinha sido professor e era um homem muito culto. Sabia de tudo: latim, música, desenho, religião.
Na catequese fazíamos muitas coisas. O Padre comprava muitos livros que guardava na sacristia para lermos. Livros sobre história, geografia, animais. Faziamos muitos trabalhos. Uma vez fizemos o Crescente fértil em esferovite com casinhas em barro.
O Padre R. era uma pessoa genial. Escrevia argumentos de peças de teatro e de cinema. Acho que o cérebro dele não descansava. Estava sempre a produzir coisas maravilhosas. Não sei porque é que perdia tempo a celebrar a missa. A verdade é que escreveu um filme em que a população da aldeia participou. Eu era uma das personagens principais e ele não parava de tecer elogios à minha naturalidade em frente à câmara.
Também programava várias actividades, peddy-papers, maratonas fotográficas… Atrás da igreja havia quintal que as crianças que andavam na catequese dividiram. Cada um era dono de um terreno e aí construíamos cabanas com materiais reciclados. Lá dentro guardávamos pequenos tesouros: os nosso brinquedos, as amonites que encontrávamos nas nossas expedições à linha do comboio da zona oeste (que passa perto da minha aldeia) e outras coisas.
Comentários
Se todos os padres fossem como o Padre R., talvez a adesão à religião fosse mais fácil.
Um abraço
O Padre R. era realmente uma pessoa fora de série. Partiu quando eu estava no final da adolescência mas algumas vezes ao longo da vida imaginei que ele estava ao meu lado para me dar conselhos. Ainda hoje penso nele como o meu 5.º avô. Sem dúvida que me ensinou tanto como qualquer um dos "de sangue".
Psi: compreendo-te perfeitamente porque religiosamente tenho a mesma postura que tu.