My story #13: P.S.: Eu cresço (Parte I de II)

“Gordo!”
Perdi a conta às vezes que ouvia aquela palavra durante o dia. Lembro-me que a mãe dos meus amigos e vizinhos André e Inês, que moravam em Lisboa mas que iam para “a terra” no fim-de-semana e nas férias, um dia em que me estava a dar boleia no seu carocha verde alface me disse, sem maldade: “Senta-te no meio, Xico, os amortecedores não estão muito bons.”
Também nas visitas de estudo os professores me diziam para sentar nos bancos do fundo do autocarro porque se fosse nos duplos íamos mais apertados.
À medida que crescia parece que o meu corpo ganhava cada vez mais importância e cada vez reparavam mais nele.
“Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”        “Gordo!”
Muitas vezes chegava a casa e atirava-me para cima da cama a chorar. Não queria ouvir mais aquela palavra. Sentia-me preso por ela. Parece que mais nada de mim interessava. Que só aquela característica saltava à vista. Quem me conhecia sabia que não. Mas era muito difícil ouvir todos os dias aquela palavra. Parece que me queriam reduzir a uma só à minha gordura.
Então conheci o P.S. O P.S., como o nome indica, era um rapaz muito inteligente. E decidido. Tinha um corpo atlético e praticava desporto. Era muito esforçado e tirava boas notas. Não percebia porque não era mais popular na turma. Soube desde o primeiro momento que o vi que ia ser amigo dele. E assim foi.
Por alguma razão que desconhecia um rapaz atlético e inteligente como ele se dava com uma pessoa como eu. O P.S. era tudo o que eu não era. Eu aceitava as coisas com a passividade. Não tinha que me esforçar muito para ter o que tinha. Vivia num mundo cor-de-rosa como ele dizia. Os meus pais protegiam-me de tudo e aceitavam-me como eu era. O pai dele não. Exigia. Batia. Explorava. E era por isso que ele se esforçava tanto. Para agradar ao pai. Talvez o P.S. fosse uma “versão” do meu pai mas com um carácter diferente (nesta altura tinha lido o “Fernão Capelo Gaivota” do Richard Bach e acreditava que éramos todos a mesma pessoa). O P.S. falava muito pouco sobre ele. Era muito calado. E cada vez que partilhava algo comigo eu sentia que ele tinha feito um progresso enorme. Agora que olho para trás penso que o P.S. era mais um animal ferido que eu tentava salvar de alguma coisa. Só não sabia bem de quê. Ou talvez soubesse: da falta de amor.
Acho que ele não tinha muitas capacidades sociais. Era sem dúvida muito adulto para um rapaz de catorze anos. Sabia o que queria ser e como tinha que se esforçar para o atingir. Nesta altura já tinha todos os objectivos traçados. Não sei se por ele ou pelos pais. Eu não tinha a mínima dúvida que ele se ia tornar na pessoa que queria mas tinha sérias dúvidas sobre que tipo de pessoa seria. Ele não tinha escrúpulos para atingir os seus objectivos. Sei que estudava muito mas além disso também fazia batota. Usava cábulas e era descarado. Um dia as suas cábulas caíram do teste quando o entregava à professora de francês (as línguas eram o seu calcanhar de Aquiles). A Professora exclamou qualquer coisa. Ele disse com uma firmeza hipnótica: “Não são minhas”. E saiu sem nunca sofrer as consequências daquela “batota”.
Isto fazia-me uma enorme confusão. O P.S. fazia tudo isto com um à-vontade enorme. Passava por cima das regras e não se preocupava com isso. No bar pedia uma sandes, depois pedia outra e só pagava uma.
Eu pensava que isto tudo era muito injusto. Porque é que eu, sempre que fazia um disparate como da vez da casa assombrada era castigado e ele não sofria as consequências dos seus actos? Acho que pela primeira vez descobri que a sociedade podia não ser justa e que as pessoas podiam agir em benefício próprio sem se preocuparem com os outros e até mesmo passando por cima deles. E mais: percebi que quanto mais vulneráveis parecessemos mas a sociedade nos ia oprimir.
Achei que devia apoiar o P.S. Que ia ficar ao lado dele. Perceber o que o fazia funcionar. Conseguir que me contasse os seus segredos. Se conseguisse que confiasse em mim e me respeitasse. Ia fazer com que respeitasse os outros e se tornasse menos egoísta.

Comentários

Alexandre disse…
Aguardando o próximo 'episódio'...
João Roque disse…
E conseguiste?
um coelho disse…
Essa dos amortecedores foi um golpe muito rude! Ao que uma pessoa se sujeita...
Frankenstaquio disse…
É verdade, coelho!

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