My story #16: Vida nova!

Recordo-me que cheguei a Leiria numa quarta-feira. Os meus pais levaram-me e deixaram-me na casa de uma senhora que morava nos Capuchos, mesmo ao lado da Escola. Tinha ficado num quarto com casa de banho e varanda. Depois foram embora. Depois de eles partirem pensei: estou sozinho. Sempre tive pessoas à minha volta. E agora estou sozinho. E olhei longamente para dentro de mim. Naquele dia tudo tinha mudado de uma forma muito radical e diferente de qualquer mudança anterior. Aquele silêncio todo era ensurdecedor. Chorei. Depois saí de casa e descobri a Papelaria “Arquivo”. Comprei um livro sobre fenómenos paranormais e fui para casa lê-lo. Tudo tinha mudado tudo na minha vida. Tudo menos uma coisa: “Gordo!”
Ia começar o meu primeiro dia de aulas. Ninguém me conhecia. Podia ser quem quisesse. Podia ser respeitado. Podia ser inteligente e fazer novos amigos. As humilhações que tinha sofrido nas escolas anteriores eram desconhecidas. Tudo ia começar de novo. Mas…

Assim que cheguei à escola… deram-me um vestido. Pintaram-me a cara. Puseram-me a desfilar como uma majestosa rainha com um súbdito de cada lado (os únicos rapazes caloiros da turma) cada um a pendurado num braço e várias súbditas atrás de mim aos pares e em fila. Aquilo era um ritual que supostamente integrava as pessoas e que se chamava praxe. Mas para mim parecia a mesma troça e humilhação que tão bem conhecia de outros tempos.
Inicialmente insurgi-me contra tudo aquilo. Mas depois percebi que era uma forma de integrar e aprendi a entrar na “brincadeira”. Infelizmente percebi que muitas mais vezes servia de escape para as frustrações das pessoas que nos praxavam. E que estas pessoas estavam mais interessadas em exercer alguma forma de poder do que em integrar. Apesar de ter sido praxado e me integrar em todo aquele ambiente nunca praxei ninguém. Era incapaz de troçar de alguém ou descarregar as minhas frustrações (acho que não tinha muitas) em cima de outra pessoa.

Rapidamente fiz amigos. Os rapazes: Ricardo, Miguel e Carlos. A decidida Hélia. A meiga Margarida. A sopa-de-massas Joana, a divertida Gina, a bracarense Liliana, a boémia Gina, a empenhada Helena, a calada Susana, a insegura Patrícia, a contestatária Su… E amei o curso. Era tão variado como os meus interesses: numa hora corríamos no ginásio (que agora não me assustava tanto); noutra fazíamos um jogo dramático; a seguir estávamos a fazer primitivas ou a descobrir grupóides; e depois ainda tínhamos psicologias e sociologias e antropologias. Era maravilhoso. Aprendia de tudo. Revisitei o meu tempo de escola mas agora com outra maturidade, com outra perspectiva das coisas. Já não era o balofo com falta de jeito. Ou pelo menos já ninguém me via como tal. No entanto ainda ouvia: “Gordo!”

Comentários

um coelho disse…
Muitas vezes a entrada na faculdade é a oportunidade de 'recomeçar' a vida, novos amigos, novos locais, a possibilidade de deixar alguns traumas para trás...
João Roque disse…
A evolução a funcionar...
Frankenstaquio disse…
um coelho
outras vezes o facto de estarmos sozinhos faz-nos olhar para dentro. A nossa voz solta-se e como nós somos as nossas paredes ouve-se um eco ampliado de tudo o que nós somos... Na próxima semana saberás se estás errado ou não ;)

pinguim,

sem dúvida. Mas tudo tende para o equilíbrio...

Abraços

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