My story #17: Um ser de luz

No início não estava muito confiante. Achava todo aquele mundo maravilhoso demais e não percebia o que tinha feito para merecer tudo aquilo. Depois também achava que não era assim tão inteligente como isso para tirar um curso superior. E depois tinha uma formação diferente de toda a gente. Todos vinham de cursos científicos-naturais e eu vinha de um curso tecnológico. Todos tinham tido Química e eu tinha tido Física. Não gostava muito de Química. Por isso quando recebi a nota do meu primeiro teste, que era de Química, não foi com surpresa que vi que tinha negativa. E pensei que seria sempre assim. Ia ter imensas negativas e ia sair da Escola por não ser bom o suficiente. Bem me parecia que tudo aquilo era bom demais para continuar. Ainda assim continuei a trabalhar e a esforçar-me. E afinal estava enganado. Não voltei a tirar uma negativa durante todo o curso. E surpreendentemente empenhei-me como nunca antes na minha carreira escolar. Nunca tinha precisado ou querido estudar com afinco mas agora fazia-o. E descobria que se o fizesse conseguia ter bons resultados. Era maravilhoso. E justo (ao contrário de muitas outras coisas). E percebi que se nos esforçassemos éramos recompensados e comecei a acreditar no meu trabalho.
Longe da casa também comecei, pela primeira vez, a “comer sozinho”. Pode parecer incrível mas percebi que agora era eu que me alimentava e que decidia o que podia comer e o que precisava de comer. Não tinha a minha mãe a deitar-me comida no prato ou a incitar-me a comer mais. E percebi que não precisava comer tanto como anteriormente.
Comecei a tornar-me num “ser de luz maravilhoso”. Empenhava-me e tinha bons resultados na Escola. Controlava o que comia e estava mais magro. Era simpático e tinha amigos. Havia imensas raparigas na minha ESE e poucos rapazes. Acho que isso ajudava a que me fosse tornando muito popular. E depois além de estudar com afinco também me divertia com afinco. Adorava sair e dançar até às tantas. Tinha liberdade total e conseguia geri-la de forma a conseguir em equilíbrio saudável entre trabalho e diversão. Recordo-me que fui um dos nomeados para caloiro do ano. Wow! Eu que tinha sido a “aberração gorda” agora era nomeado para “caloiro do ano”. Como a vida muda! Tudo era perfeito! Ou seria?

Comentários

um coelho disse…
Para mim a grande conquista de ter saído de casa foi poder sair e chegar a casa à hora que quisesse, sem ter a minha mãe a rezar Pai-Nossos e Avé-Marias à minha espera.
Frankenstaquio disse…
Coelho, também gostei muito de sair de casa. No meu caso não era por motivos familiares mas sim sociais. A minha aldeia tinha-se tornado demasiado pequena para mim...
João Roque disse…
Foi um passo muito importante para ti em todos os aspectos.
A altura em que começamos a funcionar em auto-gestão é um descobrir de novas sensações.
Frankenstaquio disse…
Pinguim, sem dúvida. A saída de casa dos pais deve ser uma das etapas mais importantes nas nossas vidas. Para mim foi. Mas, nessa auto-gestão, nem todas as coisas que aconteceram foram boas... como vais perceber. Abraço!

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