My story #18: Os limites
No início do segundo ano fui morar com os rapazes do meu curso. Todos juntos alugamos um apartamento e eu dormia num enorme quarto com lareira.
Acho que agora gostava de mim. Dois aspectos davam-me uma confiança que até então tinha desconhecido que pudesse existir: o facto de perceber que controlava o que comia e que assim tinha controlo sobre o meu corpo e o facto de saber que o meu empenho e o meu trabalho contribuíam directamente para o meu sucesso académico.
Quase todas as sextas-feiras voltava para casa dos meus pais. E, no Domingo à tarde, ou na segunda de manhã o meu pai levava-me a Leiria. Levava sempre muita comida. Muitas vezes alguma estragava-se. Ou era fruta que apodrecia ou comida que se estragava porque almoçava na escola e não conseguia comer tudo.
Talvez tenha dito à minha mãe para não me mandar tanta comida. Mas a verdade é que ela continuava a mandar-me imensa comida. Comida que eu agora não precisava. Mas também não a queria desiludir. Queria muito que ela tivesse orgulho em mim. Não queria fazê-la chorar. Nunca. Queria ser perfeito porque ela e o meu pai mereciam um filho perfeito. Tão perfeito como eles sempre tinham sido para mim. O meu pai que tinha que viver tanto tempo no mar, “aos trambolhões” para que tivessemos uma vida melhor. A minha mãe que sempre dedicou toda a sua vida a criar-nos. Eles mereciam o melhor que eu também pudesse dar!
E a determinada altura do 1.º ano fiz aquilo que mais me envergonho de fazer em toda a minha vida: comecei a deitar a comida fora. Em casa também comecei a comer menos. Muitas vezes ficava a estudar no quarto ou dizia à minha mãe que ia acabar a refeição no quarto enquanto estudava. Na verdade despejava tudo na sanita. Ou então guardava num saco de plástico e depois ia deitar ao lixo.
Comecei a ficar mais magro. E isso dáva-me mais autoconfiança. Era bom no que fazia e finalmente gostava de mim. Tinha orgulho em todas as coisas que estava a conseguir alcançar sozinho. Longe de tudo e de todos. Sentia-me forte e capaz de tudo. Não precisava de dormir muito. Estava a aprender a trabalhar em grupo. Para mim era difícil mas enquadrava-me muito bem com as pessoas com que estava: a Hélia era uma líder nata com uma determinação e autoconfiança inabaláveis; a Margarida era uma rapariga ponderada e serena e a Jo era a nossa “tia” de Coimbra. Eu acho que era o criativo do grupo. Tinha boas ideias e as minhas colegas tornavam-nas reais. Sozinho não tinha conseguido, de certeza. E percebi a importância da cooperação e do trabalho de grupo. Percebi que juntos podemos ir muito mais além do que a soma das partes. Muitas vezes saíamos da aulas e íamos dormir. Encontravamo-nos à meia-noite para tomar café. Depois trabalhávamos até às três ou quatro da manhã e iamos dormir a seguir. Às vezes fazíamos isto só que em vez de irmos dormir dirigiamo-nos à discoteca mais próxima. Não sei como aguentávamos o ritmo.
Eu andava muito feliz. Tudo me corria bem. Agora quando comprava calças era o número 36. E pesava 59 quilos. Era maravilhoso para alguém que tinha vestido o número 48 e pesado 90 quilos.
Uma das pessoas que eu mais admirava era a Helena. Era a melhor aluna do curso, a mais aplicada. Era uma rapariga baixa e magra. Parecia ter uma energia inesgotável e não parava. Ajudava os outros. Um dia tirou os sapatos para os dar a uma menina que ia descalça na rua. Mas começou a emagrecer mais. As roupas começaram a ficar muito largas. Ela chegou a pesar 27 quilos. As pernas dela estavam muito magras e o cabelo caia-lhe. Os olhos azuis tinham ficado maiores.
Um dia abraçamo-nos nas escadas do antigo Magistério Primário de Leiria (onde tínhamos aulas) e disse-lhe que a admirava imenso. Ela disse-me o mesmo. E ficámos assim abraçados a chorar durante um bom bocado (ela tinha ficado uns degraus acima porque era mesmo baixota).
Entretanto percebi que, socialmente, ser um “ser de luz maravilhoso” era muito parecido com ser uma “aberração gorda”. Antes as pessoas olhavam de lado para mim porque era diferente, mais gordo, mais feio. Agora estava a fazer tudo bem. Tinha a certeza disso. E mesmo assim as pessoas olhavam para mim como se todo o esforço e empenho que eu colocava nas coisas as diminuísse. Porque não percebiam que “somos todos um” e que tudo o que eu fazia para melhorar como ser humano se reflectia no mundo onde vivíamos? Até hoje não tenho resposta para esta questão. Incomoda-me muito que as pessoas promovam a medriocridade por terem dificuldade em lidar com os seus sentimentos de impotência.
Na próxima semana: um cano rebenta!
Comentários
Pinguim, modéstia à parte espero que sim. Aprendi muito com elas. Se puderem ajudar mais alguém fico muito feliz. E isso só as tornará ainda mais válidas.
Abraço
então não custa? Mas olhar para trás e ver o quanto crescemos também é gratificante! Abraço